segunda-feira, 1 de abril de 2013

God save the keeper



A Inglaterra não ganha nenhuma competição de selecções desde 1966 quando organizou o campeonato do mundo. Em 1990 ficou às portas da final mas começou aí a maldição das grandes penalidades – seguiram-se o Euro 96, o Mundial 1998, o Euro 2004 e o Mundial 2006. Assim não há guarda-redes que resista. O primeiro a sofrer foi Peter Shilton, impotente perante a frieza dos alemães desde os onze metros.

Mas recuemos até ao Mundial de 66. O dono da baliza era Gordon Banks, um dos melhores guarda-redes de todos os tempos. Foi um dos grandes responsáveis pela bela campanha inglesa nesse Mundial e o primeiro golo que sofreu nessa competição foi de Eusébio, de grande penalidade - quem diria. É célebre a imagem do pantera negra a cumprimentar Banks depois do golo. Banks esteve presente nos Mundiais de 62, 66 e 70. Neste último, no México, efectuou uma das defesas mais conhecidas de sempre, impedindo Pelé de fazer o golo. E ganhou a imortalidade nos almanaques de futebol.

Shilton, o sucessor, foi dono da baliza inglesa durante mais de uma década e pode ser lembrado de várias formas. Por ser o guarda-redes do mítico Notthingham Forest, bicampeão europeu no final da década de 70. Por ser o guarda-redes que encaixou os dois golos mais famosos do mundo, e num só jogo: a mão de deus e o slalom gigante do deus argentino Maradona em pleno mundial mexicano. Também foi nesta competição que Carlos Manuel marcou o golo da vitória portuguesa no jogo inaugural. Shilton é também o jogador com mais presenças em jogos oficiais de sempre, cuja carreira só terminou aos 47 anos.  




Shilton teve que lutar com Ray Clemence pelo lugar que pertenceu durante vários anos a Gordon Banks. Se Shilton ganhou duas Champions, Clemence ganhou 3 nos anos 70 ao serviço do Liverpool, mais duas Taças Uefa. Quem levou a melhor na rivalidade entre os dois foi Shilton, que se retirou da selecção em 1990 e deixou em aberto uma vaga na baliza inglesa. No Euro 96 a seguinte vítima da maldição das grandes penalidades foi David Seaman, o homem do bigode e do rabo de cavalo, já mais no final da carreira, e também dos pontapés esquisitos. Titular do melhor Arsenal dos anos 90 – deixou Highbury Park no ano anterior à época perfeita (2003/2004) – Seaman agarrou o lugar na selecção inglesa face à concorrência de Flowers, Martyn ou Ian Walker. Seaman esteve perto de alcançar a glória mas outra vez os alemães nas meias finais, e agora em casa no Euro 96, impediram o acesso a uma nova final em Wembley. Dois anos mais tarde, quando os ingleses em terras gaulesas queriam a desforra de 86, Seaman voltou a ser impotente e não impediu a vitória argentina nas grandes penalidades.





Apesar de toda a qualidade de Seaman – esta defesa é brilhante, por exemplo – o momento mais marcante da sua carreira ocorreu no Japão. Os ingleses acordaram cedo esperançados numa boa exibição que pudesse eliminar o poderoso Brasil. Owen ainda alimentou o sonho mas Rivaldo esfriou os ânimos. Até que aos 50 minutos, um livre lateral aparentemente inofensivo resultou num dos lances mais famosos dos mundiais, coisa que parece perseguir os guarda-redes ingleses. Seaman colocou-se mal e não teve instinto para deter o arco de Ronaldinho Gaúcho. 2-1, derrota inglesa e todos temos ainda na cabeça as imagens de um David Seaman desconsolado, de braços cruzados, a ser confortado no meio do relvado por todos os seus companheiros. Que terá pensado Banks nesse momento, ele que soube parar Pelé de uma forma magistral?

A sucessão de David Seaman não foi fácil. Pela baliza inglesa passaram David James, Paul Robinson ou Robert Green sem nenhum sucesso e com grandes galináceos na memória. Até que um jovem louro começa a dar nas vistas no Manchester City e Capello decide dar-lhe a titularidade após o mundial sul-africano. Joe Hart agarrou o lugar e, passados mais de dez anos, a selecção inglesa tem um guarda-redes titular incontestável, poupando muito tempo e páginas de jornais durante os estágios que precedem os grandes torneios. Hart pode ser a base que faltava para uma grande campanha inglesa.


 
Desenhado por Pedro Barbosa | Gerido por Pedro Fragoso - Heróis e Galináceos