quarta-feira, 26 de novembro de 2014

2014: o ano do guarda-redes



As discussões à volta da Bola de Ouro são incontornavelmente aborrecidas. A não ser para quem se posiciona fervorosamente num dos lados da barricada – leia-se fanáticos de Messi e Cristiano -, tudo parece uma fantochada sem interesse. Por muito que aqueles dois jogadores mereçam o prémio, nos últimos dez anos não se premiou jogadores como Iniesta, Xavi, Casillas, Puyol, Gerrard, Lampard, Buffon, Totti, Ribery, Robben, Zlatan, entre outros de quase igual valor e paixão intensa pelo jogo. Bem sei que a diferença está naquele “quase”, mas caramba, o binómio Cristiano-Messi começa a ser enjoativo.

Sabemos perfeitamente que os guarda-redes não estão destinados a estes prémios mas o ano de 2014 parece-me claro que poderá ser considerado como o ano do guarda-redes, por dois motivos principais. 2014 foi ano de Mundial e é quase unânime que as maiores vedetas do Brasil’2014 foram guarda-redes: Bravo, Ochoa, Krul, Romero, Mbolhi, Navas, Júlio César e, claro, Manuel Neuer protagonizaram grandes momentos para a eternidade. O guarda-redes alemão, vencedor do troféu de melhor guarda-redes do torneio, é a segunda razão para que 2014 seja recordado como o ano dos guarda-redes.

O culto a Manuel Neuer começa a crescer. A sua exibição frente à Argélia nos oitavos do Mundial ficará para sempre na memória dos apaixonados por este desporto. Naqueles 120 minutos foi toda uma filosofia que ganhou fama e estatuto – o guarda-redes líbero não era um conceito desconhecido mas daquela forma tão segura, determinada e planeada raramente tinha sido observada, ainda por cima num palco onde os olhares de todo o mundo estavam postos. Neuer mostrou o que é ser um guarda-redes ao serviço da equipa: a Alemanha, claramente mais forte que a Argélia, enquanto subia as suas linhas para pressionar uma Argélia defensiva deixava a sua defesa relativamente desprotegida tendo em conta a rapidez dos avançados argelinos, venenosos no contra-ataque. Manuel Neuer, assim, subiu uns bons metros no terreno e aproveitou a sua capacidade física e técnica para destruir uma mão cheia de contra-ataques argelinos que se adivinhavam mortais. Ao ver aquilo perguntava-me se Jens Lehnman ou Oliver Kahn poderiam desempenhar aquele papel, só para mencionar os anteriores donos da baliza da selecção alemã em campeonatos do mundo. A resposta óbvia é não e podíamos agora entrar numa discussão sobre se a Alemanha adoptou essa estratégia por ter Manuel Neur na baliza ou foi o guarda-redes que cresceu com esta filosofia de jogo ao longo dos anos. A discussão daria um outro texto mas defendo que a segunda hipótese é a mais provável porque temos outros guarda-redes alemães que encaram o jogo dessa forma e também porque a filosofia alemã de jogo é fruto de um trabalho estruturado ao longo de vários anos.

Os portugueses, e os portistas em particular, já conhecem Manuel Neuer desde aquela noite de Março de 2008. Ainda no Schalke 04 onde se formou, Neuer deu um festival de defesas – quase todas debaixo dos postes – e percebeu-se logo que tínhamos ali um caso sério para os próximos anos. Assim foi: ganhou o estatuto de titular da selecção e transferiu-se para o gigante Bayern onde hoje mostra a sua arte e ajuda a equipa de Guardiola a dominar o futebol alemão.  Neuer hoje é quase uma unanimidade no que toca à escolha do melhor guarda-redes da actualidade, não só pelas suas virtudes enquanto líbero mas também pela sua agilidade, tranquilidade e posicionamento entre os postes. Quem não se lembra daqueladefesa, nos quartos de final, ao remate de Benzema já depois dos 90minutos?


Voltando ao princípio, há quem defenda seriamente que deveria ganhar o troféu de melhor do mundo. Se Messi e Cristiano não existissem, certamente Neuer seria um candidato fortíssimo. Assim, é deixar rolar e ficarmos satisfeitos por vermos que a posição de guarda-redes ganha cada vez mais adeptos e admiração. Neuer, apesar de ser o expoente máximo, não é o único a gerar loucuras colectivas. Courtois é o guarda-redes do futuro, Buffon e Casillas, apesar da idade, continuam a ter uma legião de fãs assinalável. Celebremos, então, os guarda-redes. E não nos podemos esquecer que a Bola de Ouro 2013 para a melhor jogador de futebol feminino foi para Nadine Angerer, alemã e...guarda-redes.

 
Desenhado por Pedro Barbosa | Gerido por Pedro Fragoso - Heróis e Galináceos