As discussões à volta da Bola de Ouro são incontornavelmente
aborrecidas. A não ser para quem se posiciona fervorosamente num dos lados da
barricada – leia-se fanáticos de Messi e Cristiano -, tudo parece uma
fantochada sem interesse. Por muito que aqueles dois jogadores mereçam o
prémio, nos últimos dez anos não se premiou jogadores como Iniesta, Xavi,
Casillas, Puyol, Gerrard, Lampard, Buffon, Totti, Ribery, Robben, Zlatan, entre
outros de quase igual valor e paixão intensa pelo jogo. Bem sei que a diferença
está naquele “quase”, mas caramba, o binómio Cristiano-Messi começa a ser
enjoativo.
Sabemos perfeitamente que os guarda-redes não estão
destinados a estes prémios mas o ano de 2014 parece-me claro que poderá ser
considerado como o ano do guarda-redes, por dois motivos principais. 2014 foi
ano de Mundial e é quase unânime que as maiores vedetas do Brasil’2014 foram
guarda-redes: Bravo, Ochoa, Krul, Romero, Mbolhi, Navas, Júlio César e, claro,
Manuel Neuer protagonizaram grandes momentos para a eternidade. O guarda-redes
alemão, vencedor do troféu de melhor guarda-redes do torneio, é a segunda razão
para que 2014 seja recordado como o ano dos guarda-redes.
O culto a Manuel Neuer começa a crescer. A sua exibição
frente à Argélia nos oitavos do Mundial ficará para sempre na memória dos
apaixonados por este desporto. Naqueles 120 minutos foi toda uma filosofia que
ganhou fama e estatuto – o guarda-redes líbero não era um conceito desconhecido
mas daquela forma tão segura, determinada e planeada raramente tinha sido
observada, ainda por cima num palco onde os olhares de todo o mundo estavam
postos. Neuer mostrou o que é ser um guarda-redes ao serviço da equipa: a
Alemanha, claramente mais forte que a Argélia, enquanto subia as suas linhas
para pressionar uma Argélia defensiva deixava a sua defesa relativamente
desprotegida tendo em conta a rapidez dos avançados argelinos, venenosos no
contra-ataque. Manuel Neuer, assim, subiu uns bons metros no terreno e
aproveitou a sua capacidade física e técnica para destruir uma mão cheia de
contra-ataques argelinos que se adivinhavam mortais. Ao ver aquilo
perguntava-me se Jens Lehnman ou Oliver Kahn poderiam desempenhar aquele papel,
só para mencionar os anteriores donos da baliza da selecção alemã em
campeonatos do mundo. A resposta óbvia é não e podíamos agora entrar numa
discussão sobre se a Alemanha adoptou essa estratégia por ter Manuel Neur na
baliza ou foi o guarda-redes que cresceu com esta filosofia de jogo ao longo
dos anos. A discussão daria um outro texto mas defendo que a segunda hipótese é
a mais provável porque temos outros guarda-redes alemães que encaram o jogo
dessa forma e também porque a filosofia alemã de jogo é fruto de um trabalho
estruturado ao longo de vários anos.
Os portugueses, e os portistas em particular, já conhecem
Manuel Neuer desde aquela noite de Março de 2008. Ainda no Schalke 04 onde se
formou, Neuer deu um festival de defesas – quase todas debaixo dos postes – e
percebeu-se logo que tínhamos ali um caso sério para os próximos anos. Assim
foi: ganhou o estatuto de titular da selecção e transferiu-se para o gigante
Bayern onde hoje mostra a sua arte e ajuda a equipa de Guardiola a dominar o
futebol alemão. Neuer hoje é quase uma
unanimidade no que toca à escolha do melhor guarda-redes da actualidade, não só
pelas suas virtudes enquanto líbero mas também pela sua agilidade,
tranquilidade e posicionamento entre os postes. Quem não se lembra daqueladefesa, nos quartos de final, ao remate de Benzema já depois dos 90minutos?
Voltando ao princípio, há quem defenda seriamente que
deveria ganhar o troféu de melhor do mundo. Se Messi e Cristiano não
existissem, certamente Neuer seria um candidato fortíssimo. Assim, é deixar
rolar e ficarmos satisfeitos por vermos que a posição de guarda-redes ganha
cada vez mais adeptos e admiração. Neuer, apesar de ser o expoente máximo, não
é o único a gerar loucuras colectivas. Courtois é o guarda-redes do futuro,
Buffon e Casillas, apesar da idade, continuam a ter uma legião de fãs
assinalável. Celebremos, então, os guarda-redes. E não nos podemos esquecer que a Bola de Ouro 2013 para a melhor jogador de futebol feminino foi para Nadine Angerer, alemã e...guarda-redes.


10:45
Pedro Fragoso


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