sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

La bella Italia degli anni '90


O regresso das competições europeias em Fevereiro é sempre uma das melhores sensações da época desportiva para os amantes do futebol. As noites europeias de terça, quarta e quinta trazem duelos cada vez mais excitantes já que estamos na fase das eliminatórias e qualquer erro paga-se caro. Um frango, um golo falhado, um passe mal feito – tudo conta demasiado para a sobrevivência das equipas na luta pela conquista dos dois troféus continentais. E, para além de podermos assistir a belos jogos de futebol, estas noites europeias remetem-nos para o universo de jogos inesquecíveis de há 40, 30, 20 ou mesmo 10 anos atrás.

Viajamos hoje até aos anos 90. Na altura ainda havia a entretanto extinta Taça das Taças, a Taça Uefa era decidida com uma final a duas mãos e não havia fase de grupos. Já a Champions começava a transformar-se naquilo a que nós hoje estamos habituados. E nesses anos 90 do futebol europeu, o denominador comum é o calcio. A Serie A era o campeonato mais atractivo do futebol europeu dada a sua competitivdade interna. Para se ter uma noção: entre 1989 e 2001 houve sete vencedores diferentes do campeonato, isto em treze edições.

(uma boa leitura complementar sobre este assunto pode ser encontrada aqui, no excelente Futebol Magazine)

Durante este período – estamos a falar entre 1989 e 1999 - foram vários os clubes italianos que conheceram o sucesso europeu. No que respeita à Champions, AC Milan venceu por três vezes a maior prova continental e foi finalista vencido por duas ocasiões; a Juventus tem um saldo de uma vitória e duas finais perdidas; e ainda temos que falar da Sampdória, finalista vencida em 1992 contra o Barcelona e o dream team de Cruijff. No palmarés das finais da Taça das Taças marcam presença a Sampdória com uma vitória e um derrota; o Parma tem o mesmo registo que o clube genovês; e a Lázio pode orgulhosamente gabar-se de ser a última equipa vencedora da competição, em 1999 contra o Maiorca no Villa Park. Por fim, o registo italiano na Taça Uefa é impressionante durante este período, havendo inclusive quatro finais entre clubes transalpinos: o Nápoles conta com uma vitória; a Juventus regista duas vitórias e uma final perdida; a Fiorentina, o Torino, a Lazio e a Roma todas com uma final perdida (só o Torino é que perdeu contra uma equipa não-italiana, o Ajax em 1992); o Parma venceu por duas vezes; e o Inter venceu por três vezes a Taça Uefa, perdendo uma final contra o Schalke04 em 1997.

É altura, estarão vocês a pensar, de introduzir o tema dos guarda-redes. Pois aqui vamos: em todas as finais referidas no parágrafo anterior, os clubes italianos alinharam sempre com guarda-redes italianos, ou melhor dizendo, portieri di calcio. Sabemos que as regras para a contratação de estrangeiros eram apertadas mas este facto não deixa de ser um registo quase inacreditável para equipas que dominavam o futebol europeu e que contavam nas suas fileiras com jogadores estrangeiros de grande qualidade, mas nunca debaixo dos postes. Antes de fazer esta pequena pesquisa nunca pensei que todos fossem italianos. Mas como tinha saudades de Pagliuca, Rossi, Peruzzi ou Marchegianni resolvi retornar à minha infância, reviver alguns jogos marcantes da minha construção enquanto adepto. As finais europeias, às 19.45 de quarta, foram sempre momentos de êxtase até porque não havia nem Internet, nem Sporttv para podermos ver jogos de futebol com a regularidade desejada.



Seria injusto dizer peremptoriamente que os guarda-redes italianos foram os melhores da Europa durante aquela última década do século XX. A Alemanha, por exemplo, teve Kopke, Ilgner, Lehnman ou Kahn. Em França vimos grandes exibições de Lama, Barthez ou Martini. Pelas balizas holandesas passaram Van der Sar, Ruud Hesp ou De Goey. Os espanhóis viram brilhar Cañizares, Zubizarreta, Lopetegui ou Molina. Mas não há dúvida que o futebol italiano teve um número considerável de brilhantes guarda-redes que ajudaram a conquistar importantes troféus e a realizar campanhas europeias que os seus adeptos jamais esquecerão.

Olhando para o panorama actual, penso que um adepto mais ou menos atento não consegue nomear mais de cinco bons guarda-redes transalpino. Ontem pude assistir a vários jogos de equipas italianas na Taça Uefa, referentes à primeira mão dos 16/avos de final. Torino, Roma, Nápoles, Inter e Fiorentina estão em prova e procuram fazer um percurso digno. Curiosamente, ontem apenas o Torino apresentou no onze titular um guarda-redes italiano – Daniele Padelli. Os outros titulares das equipas italianas eram estrangeiros, embora a Roma no seu campeonato tenha por hábito utilizar o veterano Morgan De Sanctis. Já a Juventus, única equipa italiana na Champions, continua a ser comandada por Gigi Buffon, ele que já figura na lista de vencedores de competições europeias ao serviço de equipas italianas na década de 90, ainda ao serviço daquela excitante equipa do Parma que ganhou a Taça Uefa em 1999.



Eis a lista completa de portieri de calcio que jogaram finais europeias entre 1989 e 1999 ao serviço de clubes italianos (por ordem alfabética): 

Angelo Peruzzi - vencedor da Champions em 1996; finalista vencido da mesma competição em 1997 e 1998; vencedor da Taça Uefa em 1993; finalista vencido desta competição em 1995 – clube Juventus.
Gianluca Buffon – vencedor da Taça Uefa em 1999 – clube Parma.
Gianluca Pagliuca - finalista vencido da Taça das Taças em 1989, vencedor da Taça das Taças em 1990 e finalista vencido da Champions em 1992 – clube Sampdória; finalista vencido da Taça Uefa em 1997 e vencedor da mesma competição em 1998 – clube Inter.
Giovanni Cervone – finalista vencido da Taça Uefa em 1991 – clube Roma.
Giovanni Galli - vencedor da Champions em 1988 e 1989 – clube AC Milan.
Giuliano Giuliani - vencedor da Taça Uefa em 1989 – clube Nápoles.
Luca Bucci – vencedor da Taça Uefa em 1995 e finalista vencido da Taça das Taças em 1994 – clube Parma.
Luca Marchegiani – finalista vencido da Taça Uefa em 1992 e em 1998 – clubes Torino e Lazio (respectivamente); vencedor da Taça das Taças em 1999 – clube Lazio.
Marco Ballota – vencedor da Taça das Taças em 1993 – clube Parma.
Marco Landucci – finalista vencido da Taça Uefa em 1990 – clube Fiorentina.
Sebastiano Rossi - vencedor da Champions em 1994; finalista vencido da mesma competição em 1993 e 1995 – clube AC Milan.
Stefano Tacconi – vencedor da Taça Uefa em 1990 – clube Juventus.

Walter Zenga – vencedor da Taça Uefa em 1991 e 1994 – clube Inter.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Duelos #2: Fabiano vs Hélton



O regresso à competição de Hélton é uma grande notícia para Julen Lopetegui. O experiente guarda-redes brasileiro superou uma lesão complicada no tendão de Aquiles e, dez meses depois, voltou a competir oficialmente pelo clube. O FCPorto tem agora quatro opções muito válidas para a baliza – Fabiano, Andrés Fernandez, Hélton e Ricardo – e, agora que entramos na segunda e decisiva metade da temporada, o técnico espanhol tem que optar por aquela que lhe dá melhores garantias.

Ricardo está destinado a ser apenas um dos muitos guarda-redes do clube que nunca terá oportunidades e acabará por rodar épocas consecutivas emprestado a outros clubes da Primeira Liga. A contratação de Andrés Fernandez sempre foi um mistério para todos. Não podemos dizer que é um mau guarda-redes mas a sua inclusão no plantel portista não faz sentido desde o primeiro minuto e só vem dar razão àqueles que contestam a política de contratações do clube – porque não apostar nos jovens, quando havia Fabiano, Ricardo, Kadú e Hélton? Este raciocínio pode ser feito para Opare, Jose Angel, Marcano ou mesmo Evandro e Campaña mas aqui interessa-nos os guardiões da baliza. O guarda-redes espanhol, portanto, pode ser um bom valor para os treinos e terá alguma margem para evoluir no Dragão mas parece precipitado pensar nele para primeira opção até porque Fernandez nunca jogou num grande e a pressão de ser campeão é diferente da de jogar num clube de meio da tabela espanhola.

Sobram Fabiano e Hélton. O primeiro mereceu a confiança de Lopetegui até agora, o segundo é já uma referência do clube e figurará certamente na história do FCPorto como um dos cinco melhores guarda-redes de sempre. Vamos então analisar os pontos fortes e fracos dos dois guarda-redes.

Fabiano:



Pontos fortes – entre os postes, Fabiano tem uma agilidade fora do comum conseguindo belas intervenções de nível de dificuldade elevado. Pelo ar, Fabiano nunca revelou problemas e sempre se mostrou seguro. Antes de chegar ao Dragão tinha fama de defender grandes penalidades. Com a camisola azul e branca ainda não revelou essa faceta e já teve várias oportunidades.

Pontos fracos – o jogo com os pés é claramente um problema para Fabiano: não é que seja “tosco” mas não se sente confortável com a bola nos pés e isso nota-se ainda mais porque o jogo da equipa pede muita intervenção do guarda-redes. Pode ainda melhorar as suas intervenções no mano-a-mano com os atacantes contrários. Fabiano, com excepção do jogo da Taça da Liga do ano passado com o Sporting, falhou sempre nos jogos grandes, quer na época passada (Sevilha e Benfica), quer esta época (Estoril, Sporting e Benfica) comprometendo os resultados da equipa, revelando assim muita ansiedade nestes jogos e dificuldade em superar a pressão.


Hélton:



Pontos fortes – um guarda-redes que fez esquecer Baía e que é um símbolo de uma equipa como o FCPorto só pode ser um excelente guarda-redes. O brasileiro, que passou por uma fase menos boa depois da misteriosa exclusão do escrete, sempre revelou excelentes reflexos, um jogo de pés fortíssimo, altos níveis de concentração e excelente chefia da defesa através de uma comunicação muito bom com os colegas. Sempre foi um guarda-redes de topo.

Pontos fracos – a falta de competição num guarda-redes durante 10 meses é ainda mais grave quando a maior parte do tempo nem treino específico realiza. Foi o que aconteceu a Hélton após a lesão – ontem, no regresso, vimos um Hélton com alguma pressa em fazer as coisas bem e a precipitar-se inclusivamente num lance caricato; no lance do golo, Hélton ficou demasiado tempo na linha de baliza enquanto o adversário se adiantava no terreno. Outro ponto fraco é o excessivo risco que o guarda-redes brasileiro gosta de correr nos lances em que intervém com os pés, quase matando de susto os adeptos nas bancadas.


Avaliação

Se eu tivesse que escolher, a partir de Fevereiro Hélton seria o dono da baliza portista. Aproveitaria os dois próximos jogos da Taça da liga para dar rodagem competitiva ao veterano brasileiro e a partir de Fevereiro escolheria-o para comandar a defesa portista. As razões são óbvias: na primeira metade do campeonato, o FCPorto cometeu vários erros defensivos e Fabiano falhou nos jogos grandes Os defesas, com Hélton na baliza, sentem-se mais protegidos. Para além disso, e ontem vimos isso, o jogo de pés de Hélton faz a diferença no estilo de jogo da equipa. Com os pés, Hélton toma melhores e mais rápidas decisões do que Fabiano fazendo com que a defesa, por onde passa muito jogo do FCPorto, receba a bola em melhores condições para a transportar ofensivamente.


Lopetegui, antigo guarda-redes, certamente terá mais dados do que os apresentados antes para decidir o que é melhor para a sua equipa. Mas é inegável que o regresso de Hélton vem baralhar as contas na luta pela baliza portista.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Fetiche #3 - Pedro Roma


Durante os anos 90 e inícios da primeira década do século XXI havia uma frase que eu, enquanto miúdo, ouvi muito: “só sabe defender contra os grandes”. Estávamos no tempo em que dava um jogo por semana na televisão e em que os jogos das 16h de domingo eram destaque apenas no Domingo Desportivo em breves resumos de dois/três minutos.Os jogos televisionados eram os dos três grandes e representavam uma grande oportunidade para brilhar perante as várias câmaras. Os guarda-redes, já com a fama de “defender para a fotografia”, agora podiam também fazer defesas vistosas para as repetições de ângulos distintos.

Voltemos à frase: “só sabe defender contra os grandes”. Refere-se, claro, a guarda-redes que faziam grandes exibições contra Benfica, Porto e Sporting, ou seja, em jogos televisionados. Pouco sabíamos das suas prestações noutros jogos mas o talento televisionado naquela altura valia por dezenas e dezenas de jogos na “clandestinidade” dos jogos sob o sol das 16h dos domingos em todo o país. Um miúdo como eu, que até gostava das tardes desportivas das rádios ao domingo, mas também habituado a ver vários jogos não televisionados de um grande, tinha três ou quatro nomes de guardiões que me enchiam as medidas e que brilhavam muito nas televisões portuguesas.

Um deles é Pedro Roma. Outro é Marco Tábuas mas o pequeno guarda-redes que brilhou por terras do Sado fica para outra crónica. Voltemos a uma das grandes figuras da Briosa dos últimos 30 anos.

Pedro Roma – bastava o nome próprio para eu gostar dele. Mas aquele penteado à boys band dos anos 90 e as defesas nos tais jogos televisionados deixavam-me fascinado. Se não estou em erro, há um jogo contra o FCPorto na época 2002/2003, um 1-1 mais para o final do campeonato onde Roma defendeu quase quase tudo e de forma espectacular, só não levando ao desespero o adversário porque nessa altura o título estava praticamente selado pelos dragões.


Mas o ex-guarda-redes da Briosa não é apenas um fetiche meu. Pedro Roma é um símbolo da Académica, um dos poucos dos últimos anos que, para além de jogador, foi estudante ao mesmo tempo. Depois da travessia no final dos anos 80 e início dos anos 90 na Segunda Divisão, Pedro Roma contribuiu para passar o espírito da Briosa aos novos jogadores, muitos deles estrangeiros e raros eram os que se atreviam a entrar no mundo estudantil. Ainda esteve contratualmente ligado ao Benfica mas foi em Coimbra que construiu a carreira, à qual faltou um título e uma chamada internacional.

 
Desenhado por Pedro Barbosa | Gerido por Pedro Fragoso - Heróis e Galináceos