Os guarda-redes de andebol sempre me fascinaram. A
elasticidade, as defesas completamente de pernas abertas, o equipamento largo
cobrindo todo o corpo, o facto de darem literalmente o corpo às balas que são
praticamente disparadas à queima roupa. Quando comparado com o basquetebol ou
voleibol, o andebol ganha sempre a minha preferência devido à presença do
guardião destemido.
Ver guarda-redes de futebol a jogarem de calças não é muito
usual e, quando o fazem, utilizam sempre calças justas, confundindo-se
inclusivamente com meias calças para jogos em Dezembro ou Janeiro para lá de
Varsóvia. Mas no final dos anos 90 havia uma excepção: Gabor Kiraly.
O Hertha de Berlim acumulava bons resultados a nível
nacional, apurando-se para as competições europeias com alguma regularidade.
Nesse tempo, era através principalmente dos jogos europeus que nós conhecíamos
mais jogadores de campeonatos que não passavam com regularidade na televisão
portuguesa. Foi nessas campanhas do clube da capital alemã que nós pudemos ver
o guarda-redes húngaro vestido como se fosse um atleta de andebol a defender as
redes de futebol de 11. Calças normalmente cinzentas, largas, uma camisola de
manga comprida que lhe conferia um volume mais apropriado à pratica de judo do
que a futebol. Mas Gabor Kiraly, com 1,90m, tinha elasticidade suficiente para
defesas impossíveis e para assustar os adversários. Sair ao pés de qualquer
atacante significava tapar a baliza em 80% e só os mais virtuosos jogadores
conseguiam encontrar a tal nesga de espaço nos restantes 20% de espaço livre
entre a baliza e o húngaro.
Foi uma pena que a sua geração de jogadores húngaros não
fosse suficientemente talentosa para participar num Mundial, ou mesmo num
Europeu, para abrilhantar a sua carreira que ainda dura e que se tem
desenrolado entre Alemanha e Inglaterra, já não sendo titular indiscutível há
algum tempo mas ajudando no dia-a-dia outros companheiros mais jovens. O facto
de não ter participado num Mundial também é negativo porque se todos nos
lembramos, por exemplo, dos equipamentos excêntricos de Jorge Campos, a
presença de Király numa grande competição teria servido para aumentar a sua
reputação no mundo como o guarda-redes de andebol nos relvados de futebol.
Mesmo assim, as calças de fato de treino não foram
suficientes para Király ultrapassar o mito de Gyula Grosics, o guarda-redes
húngaro que fez parte daquela maravilhosa equipa de Puskas que esteve imbatível
33 jogos até à final do Mundial de 1954, ele que também foi medalha de ouro nos
jogos de 1952 em Helsínquia, participando em três edições dos Mundiais.


11:32
Pedro Fragoso


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