terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Fetiche #2: Gabor Király



Os guarda-redes de andebol sempre me fascinaram. A elasticidade, as defesas completamente de pernas abertas, o equipamento largo cobrindo todo o corpo, o facto de darem literalmente o corpo às balas que são praticamente disparadas à queima roupa. Quando comparado com o basquetebol ou voleibol, o andebol ganha sempre a minha preferência devido à presença do guardião destemido.

Ver guarda-redes de futebol a jogarem de calças não é muito usual e, quando o fazem, utilizam sempre calças justas, confundindo-se inclusivamente com meias calças para jogos em Dezembro ou Janeiro para lá de Varsóvia. Mas no final dos anos 90 havia uma excepção: Gabor Kiraly.

O Hertha de Berlim acumulava bons resultados a nível nacional, apurando-se para as competições europeias com alguma regularidade. Nesse tempo, era através principalmente dos jogos europeus que nós conhecíamos mais jogadores de campeonatos que não passavam com regularidade na televisão portuguesa. Foi nessas campanhas do clube da capital alemã que nós pudemos ver o guarda-redes húngaro vestido como se fosse um atleta de andebol a defender as redes de futebol de 11. Calças normalmente cinzentas, largas, uma camisola de manga comprida que lhe conferia um volume mais apropriado à pratica de judo do que a futebol. Mas Gabor Kiraly, com 1,90m, tinha elasticidade suficiente para defesas impossíveis e para assustar os adversários. Sair ao pés de qualquer atacante significava tapar a baliza em 80% e só os mais virtuosos jogadores conseguiam encontrar a tal nesga de espaço nos restantes 20% de espaço livre entre a baliza e o húngaro.

Foi uma pena que a sua geração de jogadores húngaros não fosse suficientemente talentosa para participar num Mundial, ou mesmo num Europeu, para abrilhantar a sua carreira que ainda dura e que se tem desenrolado entre Alemanha e Inglaterra, já não sendo titular indiscutível há algum tempo mas ajudando no dia-a-dia outros companheiros mais jovens. O facto de não ter participado num Mundial também é negativo porque se todos nos lembramos, por exemplo, dos equipamentos excêntricos de Jorge Campos, a presença de Király numa grande competição teria servido para aumentar a sua reputação no mundo como o guarda-redes de andebol nos relvados de futebol.


Mesmo assim, as calças de fato de treino não foram suficientes para Király ultrapassar o mito de Gyula Grosics, o guarda-redes húngaro que fez parte daquela maravilhosa equipa de Puskas que esteve imbatível 33 jogos até à final do Mundial de 1954, ele que também foi medalha de ouro nos jogos de 1952 em Helsínquia, participando em três edições dos Mundiais.

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