sábado, 27 de dezembro de 2014

O momento de 2014

 
 
Este blogue é um espaço dedicado a guarda-redes mas esta eleição do grande momento de 2014, apesar de envolver um guarda-redes, não se reduz ao irredutível defensor das balizas. O melhor momento de 2014 para mim é um autêntico ponto de viragem no futebol mundial e decisivo para o desenrolar do Mundial do Brasil, competição que marca definitivamente o ano desportivo.
 
O Mineirazo (7-1 da Alemanha), ou o remate de Goetze no prolongamento do Maracanã, ou o falhanço de Messi na mesma final, ou os 5-1 da Holanda à Espanha logo a abrir o Mundial são difíceis de bater em termos de impacto mundial e haverá argumentos super válidos para fazer daqueles momentos o grande acontecimento de 2014. Mas eu quero mesmo é regressar em concreto ao minuto 42 do jogo entre Holanda e Espanha em Salvador para vos falar de uma tomada de decisão de um guarda-redes que pode ter ditado a inversão do rumo do futebol mundial.
 
Portanto, minuto 42. Breve resumo: Holanda e Espanha, no seu jogo inaugural de um grupo complicado no Mundial brasileiro, reeditam a final de há quarto anos; Espanha tenta adaptar-se ao facto de jogar com um avançado fixo - Diego Costa - e resolver alguns problemas de identidade provocados pela crise no Barcelona e pelo peso da idade de alguns dos seus cérebros; já a Holanda é uma equipa muito diferente daquela que jogou a final quatro anos antes; ao minuto 42 o resultado é 1-0, golo de Xabi Alonso de penalty; até a este minuto o jogo estava a ser controlado pela equipa espanhola, com excepção dos primeiros 10 minutos onde Sneijder teve a única boa oportunidade dos holandeses mas negada por Casillas; depois desse início, La Roja tomou conta do jogo, sem criar grande perigo é certo, mas com maturidade e serenidade.
 
Feito o resumo do que se havia jogado até então, o que é que acontece ao minuto 42? Espanha com o seu tiki-taka renovado procurava soltar-se da marcação impiedosa dos cinco homens mais recuados holandeses. Van Gaal montou a estratégia ao pormenor com três defesas que não largavam Silva, Iniesta e Diego Costa. Xavi, Xabi e Busquets tentavam encontrar os espaços para as potenciais subidas dos laterais mas sem grande sucesso. E após uma jogada iniciada num dos centrais, Iniesta e Silva conseguiram soltar-se das amarras holandesas e inventaram uma movimentação que deixou o jogador City na cara de Cillessen.
 
Silva teve aqui a grande oportunidade para fazer o 2-0 e deixar os holandeses ainda mais desnorteados, porque os obrigaria a mudar de estratégia rapidamente. O espanhol tentou colocar a bola com arte por cima do guarda-redes mas o guardião do Ajax decidiu aguentar-se em pé e com um toque decisivo impediu a bola de entrar na baliza holandesa.
 
O resto da história toda a gente sabe: na sequência do canto, a Holanda inicia um ataque que resulta no mais belo golo do campeonato e do ano - Blind e Van Persie nunca teriam aquela oportunidade se Silva tivesse feito o golo. Na segunda parte veio a hecatombe espanhola e os 5-1 que destruíram psicologicamente os jogadores para o resto do campeonato. Os campeões do Mundo e da Europa sofriam uma das maiores humilhações da história e praticamente abdicavam do trono.
 
Se David Silva tivesse marcado, o percurso espanhol seria diferente. Estamos a falar de um "se" e podemos ir buscar outros lances - como o de Robben na final de 2010 - para tentar explicar outras direcções que o rumo do futebol mundial teria tomado caso se. Muito provavelmente os espanhóis não seriam campeões do mundo mas a forma como foram humilhados no terreno de jogo e fora dele, com muita injustiça à mistura, faz com que este seja o meu momento de 2014.
 
Só graças a Cillessen pudemos obter as belas imagens do voo de Van Persie e de Casillas de gatas perante Robben.
 
 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Grandes momentos #4: mais uma loucura de Oliveira



Substituir um guarda-redes de grande nível nunca é fácil, principalmente quando ele deixa o seu fantasma após várias épocas seguidas no mesmo clube. São vários os casos em que um clube só encontra um substituto à altura após quatro, cinco ou seis tentativas. Os treinadores, que sabem bem da importância do guarda-redes numa equipa, tentam antecipar-se o mais possível à reforma do mito ou à sua saída para um clube maior mas nem sempre conseguem encontrar o que querem. Veja-se Ferguson depois da saída de Schmeichel, por exemplo. Daí que se perceba melhor a contratação de Keylor Navas este ano pelo Real Madrid pois todos sabemos que Casillas não durará para sempre. Porém, nem todos os jogadores estariam dispostos a aceitar a situação de Navas mas o costa-riquenho deve ter sido (bem) convencido por Ancelotti que se aguentasse pelo menos uma época na condição de suplente crónico, daqui a um ano – ou dois – ele seria o dono da baliza merengue já depois de conhecidos os cantos à casa, de ter sido posto à prova em jogos da Taça ou da Champions.

Mas nem sempre se está preparado para a perda de um jogador fundamental. Veja-se o caso de Vítor Baía, que deu o salto para o Barcelona deixando o seu fantasma na baliza portista durante algum tempo. Ele que teve a missão de substituir outro mito, Józef Młynarczyk. Atirado cedo às feras, Baía conhecia bem os cantos à casa por ter feito o percurso nas camadas jovens dos Dragões e impôs-se com naturalidade. O problema foi mesmo substituí-lo já que Robson o levou com ele para a Catalunha. António Oliveira e Pinto da Costa pensaram em voltar ao mito polaco e escolheram o na altura titular da seleção da Polónia. Andrzej Woźniak também tinha bigode mas era mais baixo que o compatriota campeão europeu na década anterior e, como todos sabemos, tinha metade do talento de Josef, o seu treinador de guarda-redes no Porto.

Mas não foi só na Polónia que o FCPorto foi tentar combater o fantasma de Baía. Na Suécia “pescou” Eriksson, especialista em sofrer golos por entre as pernas e que esteve três épocas na Invicta. E ainda apostou no veterano Silvino. Porém, quem mais se destacou na primeira época pós-Baía foi um produto da formação que havia rodado na Naval e na Académica: Hilário.

Se nos primeiros jogos António Oliveira escolheu Wozniak, após uma pausa nas selecções e na visita importante a Alvalade o treinador português surpreendeu ao apostar na titularidade do jovem Hilário. Exibição segura, zero golos sofridos e vitória por 0-1. Com Oliveira, como durante a época se percebeu, não é difícil ficarmos surpreendidos: Costa em Manchester a lateral direito é daquelas invenções que ficam para a história. Aliás, os quatro golos sofridos por Hilário em Old Traford deixaram marca no guarda-redes e na parte final da época a baliza foi entregue a Silvino, garantindo o Tri inédito até então para os azuis e brancos.

Hilário nunca mais conseguiu afirmar-se como indiscutível no Porto. Veio Rui Correia, veio Costinha, veio Krajl, regressou Baía, lesionou-se Baía, veio Ovchinnikov, Pedro Espinha, Paulo Santos ou Nuno e nunca mais nenhum treinador apostou na qualidade de Hilário, que foi rodando entre o Estrela da Amadora, o Varzim e a Académica até que na Choupana fez três belas épocas no Nacional. Estava mais maduro e seguro e Mourinho, que já havia trabalhado com ele no FCPorto, achou que seria uma bela escolha para terceiro guarda-redes do Chelsea e por lá ficou oito épocas, sendo chamado nalguns casos a intervir em jogos da Champions e da Liga Inglesa. Hilário acabou a carreira profissional como terceiro guarda-redes num grande clube, uma função que muitas vezes está destinada a jovens promessas como ele um dia foi mas que alguns treinadores preferem dar esse lugar a jogadores que possam ser uma mais-valia no treino. Assim, encheu o currículo com grandes vitórias e troféus.


Aquele jogo em Alvalade e a ousadia de Oliveira mudaram-lhe a vida porque poderia ter seguido o caminho que muitas ex-futuras estrelas portistas percorreram – Ventura, Bruno Vale, Taborda, apenas para citar os mais recentes.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Fetiche #2: Gabor Király



Os guarda-redes de andebol sempre me fascinaram. A elasticidade, as defesas completamente de pernas abertas, o equipamento largo cobrindo todo o corpo, o facto de darem literalmente o corpo às balas que são praticamente disparadas à queima roupa. Quando comparado com o basquetebol ou voleibol, o andebol ganha sempre a minha preferência devido à presença do guardião destemido.

Ver guarda-redes de futebol a jogarem de calças não é muito usual e, quando o fazem, utilizam sempre calças justas, confundindo-se inclusivamente com meias calças para jogos em Dezembro ou Janeiro para lá de Varsóvia. Mas no final dos anos 90 havia uma excepção: Gabor Kiraly.

O Hertha de Berlim acumulava bons resultados a nível nacional, apurando-se para as competições europeias com alguma regularidade. Nesse tempo, era através principalmente dos jogos europeus que nós conhecíamos mais jogadores de campeonatos que não passavam com regularidade na televisão portuguesa. Foi nessas campanhas do clube da capital alemã que nós pudemos ver o guarda-redes húngaro vestido como se fosse um atleta de andebol a defender as redes de futebol de 11. Calças normalmente cinzentas, largas, uma camisola de manga comprida que lhe conferia um volume mais apropriado à pratica de judo do que a futebol. Mas Gabor Kiraly, com 1,90m, tinha elasticidade suficiente para defesas impossíveis e para assustar os adversários. Sair ao pés de qualquer atacante significava tapar a baliza em 80% e só os mais virtuosos jogadores conseguiam encontrar a tal nesga de espaço nos restantes 20% de espaço livre entre a baliza e o húngaro.

Foi uma pena que a sua geração de jogadores húngaros não fosse suficientemente talentosa para participar num Mundial, ou mesmo num Europeu, para abrilhantar a sua carreira que ainda dura e que se tem desenrolado entre Alemanha e Inglaterra, já não sendo titular indiscutível há algum tempo mas ajudando no dia-a-dia outros companheiros mais jovens. O facto de não ter participado num Mundial também é negativo porque se todos nos lembramos, por exemplo, dos equipamentos excêntricos de Jorge Campos, a presença de Király numa grande competição teria servido para aumentar a sua reputação no mundo como o guarda-redes de andebol nos relvados de futebol.


Mesmo assim, as calças de fato de treino não foram suficientes para Király ultrapassar o mito de Gyula Grosics, o guarda-redes húngaro que fez parte daquela maravilhosa equipa de Puskas que esteve imbatível 33 jogos até à final do Mundial de 1954, ele que também foi medalha de ouro nos jogos de 1952 em Helsínquia, participando em três edições dos Mundiais.

 
Desenhado por Pedro Barbosa | Gerido por Pedro Fragoso - Heróis e Galináceos