Substituir um guarda-redes de
grande nível nunca é fácil, principalmente quando ele deixa o seu fantasma após
várias épocas seguidas no mesmo clube. São vários os casos em que um clube só
encontra um substituto à altura após quatro, cinco ou seis tentativas. Os
treinadores, que sabem bem da importância do guarda-redes numa equipa, tentam
antecipar-se o mais possível à reforma do mito ou à sua saída para um clube
maior mas nem sempre conseguem encontrar o que querem. Veja-se Ferguson depois
da saída de Schmeichel, por exemplo. Daí que se perceba melhor a contratação de
Keylor Navas este ano pelo Real Madrid pois todos sabemos que Casillas não
durará para sempre. Porém, nem todos os jogadores estariam dispostos a aceitar
a situação de Navas mas o costa-riquenho deve ter sido (bem) convencido por
Ancelotti que se aguentasse pelo menos uma época na condição de suplente
crónico, daqui a um ano – ou dois – ele seria o dono da baliza merengue já
depois de conhecidos os cantos à casa, de ter sido posto à prova em jogos da
Taça ou da Champions.
Mas nem sempre se está preparado
para a perda de um jogador fundamental. Veja-se o caso de Vítor Baía, que deu o
salto para o Barcelona deixando o seu fantasma na baliza portista durante algum
tempo. Ele que teve a missão de substituir outro mito, Józef Młynarczyk.
Atirado cedo às feras, Baía conhecia bem os cantos à casa por ter feito o
percurso nas camadas jovens dos Dragões e impôs-se com naturalidade. O problema
foi mesmo substituí-lo já que Robson o levou com ele para a Catalunha. António
Oliveira e Pinto da Costa pensaram em voltar ao mito polaco e escolheram o na
altura titular da seleção da Polónia. Andrzej Woźniak também tinha bigode mas
era mais baixo que o compatriota campeão europeu na década anterior e, como
todos sabemos, tinha metade do talento de Josef, o seu treinador de
guarda-redes no Porto.
Mas não foi só na Polónia que o
FCPorto foi tentar combater o fantasma de Baía. Na Suécia “pescou” Eriksson,
especialista em sofrer golos por entre as pernas e que esteve três épocas na
Invicta. E ainda apostou no veterano Silvino. Porém, quem mais se destacou
na primeira época pós-Baía foi um produto da formação que havia rodado na Naval
e na Académica: Hilário.
Se nos primeiros jogos António
Oliveira escolheu Wozniak, após uma pausa nas selecções e na visita
importante a Alvalade o treinador português surpreendeu ao apostar na
titularidade do jovem Hilário. Exibição segura, zero golos sofridos e vitória
por 0-1. Com Oliveira, como durante a época se percebeu, não é difícil ficarmos
surpreendidos: Costa em Manchester a lateral direito é daquelas invenções que
ficam para a história. Aliás, os quatro golos sofridos por Hilário em Old
Traford deixaram marca no guarda-redes e na parte final da época a baliza foi
entregue a Silvino, garantindo o Tri inédito até então para os azuis e brancos.
Hilário nunca mais conseguiu
afirmar-se como indiscutível no Porto. Veio Rui Correia, veio Costinha, veio
Krajl, regressou Baía, lesionou-se Baía, veio Ovchinnikov, Pedro Espinha, Paulo
Santos ou Nuno e nunca mais nenhum treinador apostou na qualidade de Hilário,
que foi rodando entre o Estrela da Amadora, o Varzim e a Académica até que na
Choupana fez três belas épocas no Nacional. Estava mais maduro e seguro e
Mourinho, que já havia trabalhado com ele no FCPorto, achou que seria uma bela
escolha para terceiro guarda-redes do Chelsea e por lá ficou oito épocas, sendo
chamado nalguns casos a intervir em jogos da Champions e da Liga Inglesa.
Hilário acabou a carreira profissional como terceiro guarda-redes num grande
clube, uma função que muitas vezes está destinada a jovens promessas como ele
um dia foi mas que alguns treinadores preferem dar esse lugar a jogadores que
possam ser uma mais-valia no treino. Assim, encheu o currículo com grandes
vitórias e troféus.
Aquele jogo em Alvalade e a
ousadia de Oliveira mudaram-lhe a vida porque poderia ter seguido o caminho que
muitas ex-futuras estrelas portistas percorreram – Ventura, Bruno Vale,
Taborda, apenas para citar os mais recentes.


12:00
Pedro Fragoso


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