quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Grandes momentos #4: mais uma loucura de Oliveira



Substituir um guarda-redes de grande nível nunca é fácil, principalmente quando ele deixa o seu fantasma após várias épocas seguidas no mesmo clube. São vários os casos em que um clube só encontra um substituto à altura após quatro, cinco ou seis tentativas. Os treinadores, que sabem bem da importância do guarda-redes numa equipa, tentam antecipar-se o mais possível à reforma do mito ou à sua saída para um clube maior mas nem sempre conseguem encontrar o que querem. Veja-se Ferguson depois da saída de Schmeichel, por exemplo. Daí que se perceba melhor a contratação de Keylor Navas este ano pelo Real Madrid pois todos sabemos que Casillas não durará para sempre. Porém, nem todos os jogadores estariam dispostos a aceitar a situação de Navas mas o costa-riquenho deve ter sido (bem) convencido por Ancelotti que se aguentasse pelo menos uma época na condição de suplente crónico, daqui a um ano – ou dois – ele seria o dono da baliza merengue já depois de conhecidos os cantos à casa, de ter sido posto à prova em jogos da Taça ou da Champions.

Mas nem sempre se está preparado para a perda de um jogador fundamental. Veja-se o caso de Vítor Baía, que deu o salto para o Barcelona deixando o seu fantasma na baliza portista durante algum tempo. Ele que teve a missão de substituir outro mito, Józef Młynarczyk. Atirado cedo às feras, Baía conhecia bem os cantos à casa por ter feito o percurso nas camadas jovens dos Dragões e impôs-se com naturalidade. O problema foi mesmo substituí-lo já que Robson o levou com ele para a Catalunha. António Oliveira e Pinto da Costa pensaram em voltar ao mito polaco e escolheram o na altura titular da seleção da Polónia. Andrzej Woźniak também tinha bigode mas era mais baixo que o compatriota campeão europeu na década anterior e, como todos sabemos, tinha metade do talento de Josef, o seu treinador de guarda-redes no Porto.

Mas não foi só na Polónia que o FCPorto foi tentar combater o fantasma de Baía. Na Suécia “pescou” Eriksson, especialista em sofrer golos por entre as pernas e que esteve três épocas na Invicta. E ainda apostou no veterano Silvino. Porém, quem mais se destacou na primeira época pós-Baía foi um produto da formação que havia rodado na Naval e na Académica: Hilário.

Se nos primeiros jogos António Oliveira escolheu Wozniak, após uma pausa nas selecções e na visita importante a Alvalade o treinador português surpreendeu ao apostar na titularidade do jovem Hilário. Exibição segura, zero golos sofridos e vitória por 0-1. Com Oliveira, como durante a época se percebeu, não é difícil ficarmos surpreendidos: Costa em Manchester a lateral direito é daquelas invenções que ficam para a história. Aliás, os quatro golos sofridos por Hilário em Old Traford deixaram marca no guarda-redes e na parte final da época a baliza foi entregue a Silvino, garantindo o Tri inédito até então para os azuis e brancos.

Hilário nunca mais conseguiu afirmar-se como indiscutível no Porto. Veio Rui Correia, veio Costinha, veio Krajl, regressou Baía, lesionou-se Baía, veio Ovchinnikov, Pedro Espinha, Paulo Santos ou Nuno e nunca mais nenhum treinador apostou na qualidade de Hilário, que foi rodando entre o Estrela da Amadora, o Varzim e a Académica até que na Choupana fez três belas épocas no Nacional. Estava mais maduro e seguro e Mourinho, que já havia trabalhado com ele no FCPorto, achou que seria uma bela escolha para terceiro guarda-redes do Chelsea e por lá ficou oito épocas, sendo chamado nalguns casos a intervir em jogos da Champions e da Liga Inglesa. Hilário acabou a carreira profissional como terceiro guarda-redes num grande clube, uma função que muitas vezes está destinada a jovens promessas como ele um dia foi mas que alguns treinadores preferem dar esse lugar a jogadores que possam ser uma mais-valia no treino. Assim, encheu o currículo com grandes vitórias e troféus.


Aquele jogo em Alvalade e a ousadia de Oliveira mudaram-lhe a vida porque poderia ter seguido o caminho que muitas ex-futuras estrelas portistas percorreram – Ventura, Bruno Vale, Taborda, apenas para citar os mais recentes.

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