Este blogue é um espaço dedicado a guarda-redes mas esta eleição do grande momento de 2014, apesar de envolver um guarda-redes, não se reduz ao irredutível defensor das balizas. O melhor momento de 2014 para mim é um autêntico ponto de viragem no futebol mundial e decisivo para o desenrolar do Mundial do Brasil, competição que marca definitivamente o ano desportivo.
O Mineirazo (7-1 da Alemanha), ou o remate de Goetze no prolongamento do Maracanã, ou o falhanço de Messi na mesma final, ou os 5-1 da Holanda à Espanha logo a abrir o Mundial são difíceis de bater em termos de impacto mundial e haverá argumentos super válidos para fazer daqueles momentos o grande acontecimento de 2014. Mas eu quero mesmo é regressar em concreto ao minuto 42 do jogo entre Holanda e Espanha em Salvador para vos falar de uma tomada de decisão de um guarda-redes que pode ter ditado a inversão do rumo do futebol mundial.
Portanto, minuto 42. Breve resumo: Holanda e Espanha, no seu jogo inaugural de um grupo complicado no Mundial brasileiro, reeditam a final de há quarto anos; Espanha tenta adaptar-se ao facto de jogar com um avançado fixo - Diego Costa - e resolver alguns problemas de identidade provocados pela crise no Barcelona e pelo peso da idade de alguns dos seus cérebros; já a Holanda é uma equipa muito diferente daquela que jogou a final quatro anos antes; ao minuto 42 o resultado é 1-0, golo de Xabi Alonso de penalty; até a este minuto o jogo estava a ser controlado pela equipa espanhola, com excepção dos primeiros 10 minutos onde Sneijder teve a única boa oportunidade dos holandeses mas negada por Casillas; depois desse início, La Roja tomou conta do jogo, sem criar grande perigo é certo, mas com maturidade e serenidade.
Feito o resumo do que se havia jogado até então, o que é que acontece ao minuto 42? Espanha com o seu tiki-taka renovado procurava soltar-se da marcação impiedosa dos cinco homens mais recuados holandeses. Van Gaal montou a estratégia ao pormenor com três defesas que não largavam Silva, Iniesta e Diego Costa. Xavi, Xabi e Busquets tentavam encontrar os espaços para as potenciais subidas dos laterais mas sem grande sucesso. E após uma jogada iniciada num dos centrais, Iniesta e Silva conseguiram soltar-se das amarras holandesas e inventaram uma movimentação que deixou o jogador City na cara de Cillessen.
Silva teve aqui a grande oportunidade para fazer o 2-0 e deixar os holandeses ainda mais desnorteados, porque os obrigaria a mudar de estratégia rapidamente. O espanhol tentou colocar a bola com arte por cima do guarda-redes mas o guardião do Ajax decidiu aguentar-se em pé e com um toque decisivo impediu a bola de entrar na baliza holandesa.
O resto da história toda a gente sabe: na sequência do canto, a Holanda inicia um ataque que resulta no mais belo golo do campeonato e do ano - Blind e Van Persie nunca teriam aquela oportunidade se Silva tivesse feito o golo. Na segunda parte veio a hecatombe espanhola e os 5-1 que destruíram psicologicamente os jogadores para o resto do campeonato. Os campeões do Mundo e da Europa sofriam uma das maiores humilhações da história e praticamente abdicavam do trono.
Se David Silva tivesse marcado, o percurso espanhol seria diferente. Estamos a falar de um "se" e podemos ir buscar outros lances - como o de Robben na final de 2010 - para tentar explicar outras direcções que o rumo do futebol mundial teria tomado caso se. Muito provavelmente os espanhóis não seriam campeões do mundo mas a forma como foram humilhados no terreno de jogo e fora dele, com muita injustiça à mistura, faz com que este seja o meu momento de 2014.
Só graças a Cillessen pudemos obter as belas imagens do voo de Van Persie e de Casillas de gatas perante Robben.


17:13
Pedro Fragoso





