Não há melhor apresentação para este blogue do que reproduzir o pequeno escrito de Eduardo Galeano sobre os guarda-redes no excelente livro "Futebol: sol e sombra":
"Chamam-lhe porteiro, guardião, goleiro, cérbero ou guarda-trincheiras, mas também podia ser chamado mártir, paganini, penitente ou palhaço das bofetadas. Dizem que no local onde pisa não volta a crescer a relva.
É um solitário. Está condenado a ver o jogo de longe. Sem sair da baliza, aguarda, só entre os postes, o seu fuzilamento. Antes vestia de negro, como o árbitro. Agora o árbitro já não vem disfarçado de corvo e o guarda-redes consola a solidão com fantasias coloridas.
Não marca golos. Está ali para impedir que os marquem. O golo, a festa do futebol: o goleador faz a alegria e o guarda-redes, esse desmancha-prazeres, desfá-la.
Traz nas costas o número um. O primeiro a cobrar? O primeiro a pagar. O guarda-redes tem sempre a culpa. E se não a tem, paga à mesma. Quando qualquer jogador comete um penalti, o castigado é ele: ali o deixam, abandonado face ao verdugo, na imensidão da baliza vazia. E quando a equipa tem uma tarde má, é ele quem paga a conta, sob uma chuva de remates, expiando pecados alheios.
Os outros jogadores podem cometer um ou vários erros de palmatória, mas redimem-se com uma finta espectacular, um passe magistral, um disparo certeiro: ele não. A multidão não perdoa ao guarda-redes. Saiu em falso? Escorregou de forma ridícula? Deixou ressaltar a bola? Foram de seda aqueles dedos de aço? Com apenas uma fífia, o guarda-redes arruína um jogo ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e condena-o à desgraça eterna. A maldição persegui-lo-á até ao fim dos seus dias."


19:00
Pedro Fragoso


0 comentários:
Enviar um comentário