A primeira viagem no tempo decorre até 1994, na cidade de Orlando, nos Estados Unidos. Bem sei que é uma cidade pouco dada a futebol mas todos rapidamente associam aquele país e a data de 1994 ao Mundial realizado pela primeira vez em terras do Tio Sam. Jogava-se a segunda jornada da fase de grupos no Citrus Bowl, nome adequado para receber a laranja mecânica, já bem distante do fulgor de 1988. O adversário foi a vizinha Bélgica, que em 1986 ficou em quarto lugar e em 1990 foi eliminada pela Inglaterra. Neste jogo, a Bélgica, quando ainda equipava de vermelho, revelou-se uma toranja amarga para a Holanda.
Apesar do 1-0 final favorável aos belgas - golo de Albert aos 65 minutos - o jogo foi equilibrado, com muitas oportunidades para ambos os lados permitindo aos guarda-redes brilharem. De um lado, o holandês De Goey; do outro, Michel Preud'Homme, que poucas semanas depois passaria a vestir a camisola do Benfica. Bélgica e Holanda tinham ganho os jogos de estreia, também pela diferença mínima, e uma vitória praticamente assegurava a passagem aos oitavos. Foi, por isso, um jogo descomprometido, sempre em busca do golo.
Vamos ao grande momento: depois do 1-0, a Bélgica em contra ataque não conseguiu matar o jogo, fazendo com que a Holanda fosse pressionando cada vez mais a defesa belga à procura do empate. Aos 91 minutos, o pequeno holandês Marc Overmars, na altura com 21 anos, chuta de fora da área com o pé direito - o pior. A bola ia na direcção da baliza mas sofre um desvio num defesa belga, ganhando velocidade e altura. Só que Preud'Homme faz a defesa da tarde, com a mão esquerda, enviando a bola para a trave e evitando mesmo no final do jogo o empate, garantindo a passagem da Bélgica à segunda fase da competição, a quarta consecutiva em Mundiais.
É uma defesa do outro mundo, síntese das qualidades de Preud'Homme: elástico, eficaz e concentrado. Não sei se terá sido o momento chave quando atribuíram, pela primeira vez em Mundiais, o prémio Lev Yashin para o melhor guarda-redes da competição. Nesse ano, Ravelli podia ter sido uma escolha mais óbvia. Mas decidiram premiar Preud'Homme. E ainda bem pois, a nível de clubes, o belga tem um currículo à medida das suas qualidades. No Benfica ganhou uma Taça - e evitou humilhações - e foi campeão belga pelo Standard e pelo Mechelen, tendo ganho uma Taça das Taças ao serviço daquele último. O prémio de melhor guarda redes do Mundial 94 marcou a carreira deste guardião belga que sucedeu a Pfaf na baliza da selecção, uma herança pesada mas superada. Depois disso, poucos foram os guarda-redes belgas que se destacaram, à semelhança da sua selecção. As esperanças estão neste momento voltadas para Courtois.
A Bélgica acabaria por ser eliminada nos oitavos pela Alemanha. A dupla Voller - Klinsmann não deu hipóteses a Preud'Homme e fica também na memória o segundo golo da Alemanha, de Klinsmann: quem não se lembra do remate rasteiro cruzado do alemão, de primeira e de pé esquerdo, com o guarda-redes belga a esticar-se todo e a acompanhar no chão com o olhar a bola a entrar na baliza e mandando as garrafas de água de Preud'Homme pelo ar?
ps: Preud'Homme fica igualmente ligado a um grande momento da história dos Mundiais na edição de 1994. Se eu disser Saeed Owairan, apenas os mais fanáticos chegarão lá. Mas se eu falar no golo saudita do jogador que pegou na bola no seu meio campo e só parou no fundo da baliza de...Preud'Homme, muitos mais chegarão lá depressa. Foi na terceira jornada da fase de grupos, derrota da Bélgica por 1-0, o tal golo memorável que Preud'Homme - "ainda bem", dizem muitos - não defendeu.


04:15
Pedro Fragoso
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