A luta pelo título no campeonato português está excitante. Benfica e Porto têm comprovado que são as melhores equipas da actualidade e fazem marcação cerrada na luta pelo primeiro lugar. Não é uma novidade mas a distância que os separa da concorrência já não era tão expectável.
As grandes figuras destas duas equipas têm sido os goleadores, Jackson Martinez no Porto e Lima e Cardozo pelo Benfica. James também fez um bom início de época, Moutinho é a máquina do costume e no Benfica jogadores como Sálvio, Gaitan, Ola John e até Matic têm tido algum destaque. Mas, e os guarda-redes? É verdade que a maioria dos adversários de Benfica e Porto se encolhem demasiado, não chegando com muita facilidade à área contrária. Mas nas competições europeias os dois principais guardiões têm tido muito mais trabalho e é aí que, em jogos de maior dificuldade, têm que fazer valer o seu talento.
Artur Moraes e Hélton têm alguns pontos em comum. A nacionalidade, o facto de terem passado por um clube português antes de chegarem a um grande, a idade, já que são trintões - 32 para Artur, quase 35 para Hélton. Mas nas qualidades técnicas diferem bastante. Vamos a uma análise mais detalhada.
Primeiro Artur Moraes. Saiu do Brasil para Itália à procura do sucesso europeu e as boas exibições na bela cidade de Siena garantiram-lhe passagem para a capital, vestindo de giallorosso. Porém, na AS Roma não foi feliz, nunca conseguindo impôr-se como titular face a Doni e a Júlio Sérgio, dois compatriotas. O empréstimo ao Braga veio na altura certa mas só passados seis meses é que se começou a notar isso. Contratado para lutar com Quim pela baliza do Braga, uma lesão do português obrigou o Braga a procurar alternativas e foi encontrar a solução em Felipe, outro brasileiro - um guardião mais jovem, mais elástico e com grande reputação fruto das boas épocas no Corinthians. Para o bem de Artur, a passagem de Felipe por Braga não foi feliz e Domingos deu, perto do meio da época, a titularidade a Artur, tendo sido decisivo na campanha do Braga até Dublin, palco da final da Liga Europa. Esses seis meses foram fundamentais para que Jorge Jesus visse nele o homem ideal para a baliza do Benfica.
Chega ao estádio da Luz no melhor momento para um guarda-redes. No ano anterior, os adeptos do Benfica tiveram que levar com Roberto, mais a sua veia galinácea. Qualquer um que viesse dificilmente faria pior que Roberto e Jorge Jesus acreditou que o sereno Artur Moraes fosse a solução. E pegou de estaca, mesmo com a chegada poucas semanas depois do titular da selecção portuguesa Eduardo.
Na primeira época, apesar de não ter valido títulos - não jogou na Taça da Liga, único troféu conquistado pelos encarnados - Artur deu mais tranquilidade a uma defesa que no ano anterior tremia por todos os lados. Nos primeiros jogos foi fazendo boas exibições e ganhando auto-confiança e impondo respeito aos adversários. Artur é antítese de Roberto. O espanhol, com um físico impressionante, gostava de ser vistoso e exuberante. Artur Moraes é tranquilo, pouco espectacular mas eficaz. Debaixo dos postes é fortíssimo. Nas saídas aos pés dos jogadores consegue comprometer as aspirações dos avançados. Peca, é verdade, nas saídas com as mãos por alto e não é brilhante no jogo com os pés. Esta época já fez muitas defesas de qualidade. Uma delas, com o Rio Ave, salvou o Benfica mesmo no final da partida. A mais bonita, para mim, foi contra o Bayer Leverkusen, num voo para a esquerda, em sentido contrário à sua passada.
Passando para o guarda-redes portista, Hélton é dono da baliza azul e branca há mais de seis anos. Fez esquecer Baía, não deu hipóteses a Ventura, Nuno, Beto ou Bracalli e continua com altos níveis de qualidade apresentados debaixo dos postes. Mesmo assim, está numa fase descendente da carreira, na minha opinião. No ano em que ganhou tudo com o Porto de Villas-Boas, Hélton teve a melhor época da sua carreira. E isto num ano em que o Porto dominava os jogos. Mas a alta taxa de sucesso e de vitórias da equipa deve-se, em muito, às extraordinárias defesas que o guarda-redes brasileiro fez. Não deu nenhum frango nessa época, ele que é especialista em brindar os adeptos com um grande galináceo por ano. Chelsea, Dínamo Kiev, Atlético de Madrid, PSG...tudo bons exemplos.
O ano passado fez uma época muita mais fraca, falhando muitas bolas aéreas e lances de óbvia descoordenação da defesa, ele que é um líder do sector mais recuado da equipa. O facto de ter perdido a braçadeira de capitão - episódio por explicar, ainda - foi mais um factor que desestabilizou a época do guardião. Este ano já teve boas exibições mas nota-se que já não vai buscar as mesmas bolas que antigamente e, sinal dos tempos, abusa do jogo com os pés, algo em que é exímio mas também altamente perigoso para os corações dos adeptos portistas.
Quanto a outras qualidades de Hélton, partilha com Artur Moraes a grande capacidade de concentração durante os 90 minutos, é mais vistoso que o guarda-redes do Benfica, joga muito melhor com os pés e também é melhor, sem ser brilhante, no jogo aéreo. Porém, Artur fica a ganhar nas saídas aos pés dos avançados e, na minha opinião, o guarda-redes benfiquista é mais eficaz debaixo dos postes.
Hélton está a atingir o limite de idade para ser dono de uma baliza de um clube de topo. Artur está na idade certa para vingar como guarda-redes de um clube de topo. Hélton já esteve na selecção brasileira e ganhou uma Copa América. Mas nem chegou a jogar. Dunga, o seleccionador, apesar de apostado nele durante toda a preparação para o torneio, no último minuto, contra todas as apostas e para surpresa de todos, apostou no já referido Doni que nunca tinha jogado um minuto pela selecção brasileira antes do primeiro jogo oficial dessa Copa América de 2007. O Brasil venceu, Hélton esteve sempre alegre no banco e na comitiva brasileira mas demorou duas épocas a recuperar psicologicamente desse revés na selecção. Nunca mais foi chamado apesar de em 2010, no Mundial, Parreira ter convocado Gomes e Doni, e de em 2011 Mano Menezes ter levado à Copa América 2011 Victor e Jefferson. Os quatro são todos de qualidade inferior ao guarda-redes portista, que poderia ter sido a principal alternativa a Júlio César nas duas competições.
Quanto a Artur Moraes, na minha opinião também poderá reivindicar um lugar na canarinha no próximo Mundial. Scolari convocou, para o seu primeiro jogo, Júlio César e Diego Alves, guarda-redes que, se tudo correr bem, farão parte dos 23. Sobra um e acho que Artur Moraes, se se mostrar a um nível competitivo muito alto, tem fortes hipóteses de entrar na lista final.
Se tivesse que dar uma pontuação, de 0 a 10, a cada um dos dois guarda-redes analisados, seria da seguinte forma:
Pela carreira, Hélton merece um 8,5 e Artur um 7. Pela condição actual, terei que inverter os números: Artur com 8,5 e Hélton com apenas sete pontos.


20:16
Pedro Fragoso



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