Na história que se segue existem quatro personagens, dois principais, outros dois com papel secundário. O cenário é a baliza do Santiago Bernabéu que, nos últimos anos, só tem conhecido um dono: Iker Casillas, ídolo de quase todos os adeptos do Real Madrid, o herói da "Novena" em Glasgow, onde entrou na segunda parte para fazer três defesas impossíveis, contribuindo para que o Bayer Leverkusen continuasse a ser chamado muito justamente do clube do quase.
Um protagonista já temos: Casillas, para muitos o melhor guarda-redes do mundo, campeão europeu e mundial de selecções, capitão da selecção espanhol, um símbolo do futebol espanhol. Quanto a exibições, no Real Madrid raramente comprometeu. E o outro protagonista? José Mourinho, que desde que chegou a Madrid sempre quis que Casillas tivesse um concorrente à altura.
A imprensa e os adeptos nunca gostaram muito desta cruzada do técnico português mas, aqui para nós, é algo que fazia sentido. Dudek, na primeira época, ainda era uma sombra mas com a saída do polaco só ficou Adán, da cantera, como alterantiva. Casillas, na época passada em que o Real Madrid foi campeão, não deu hipóteses a Adán e fez exibições espectaculares. Esta época, face ao insucesso na Liga Espanhola e na primeira parte da temporada, Mourinho resolveu fazer de Casillas o bode expiatório: sentou-o no banco, disse que Adán estava, naquele momento melhor que Casillas e abriu uma guerra.
Porém, num dos momentos mais espectaculares desta temporada, acontece isto. Mourinho tem que voltar a confiar no capitão Casillas que demonstra estar em grande forma e volta a ganhar o lugar a Adán. Só que Casillas sofre um lesão poucos jogos depois que o impossibilita de jogar por dois meses. Tempo para Adán voltar a ser dono da baliza? Nem por isso.
Por capricho do destino, a lesão do guarda-redes acontece ainda no período de transferências, logo Mourinho tem oportunidade para ir buscar o tão ansiado terceiro guarda-redes. O escolhido é o quarto actor desta história, Diego López, também da cantera do Real Madrid, ex-suplente de Casillas por quatro épocas, da mesma idade de Casillas mas que se fartou de esperar por uma oportunidade no clube blanco. Teve espaço no Villareal onde participou na caminhada até às meias finais da Champions, da Liga Europa e no segundo lugar do clube dos arredores de Valencia na Liga Espanhola.
Diego López, catorze centímetros mais alto que Casillas e mais seis que Adán, voltou ao clube de formação com uma grande reputação, conseguida fruto de muito boas épocas anteriores onde revelou ser um guarda redes completo, sem ser vistoso, mas muito eficaz e seguro. O que eu gosto mais nele são os reflexos debaixo dos postes e a saída aos pés dos adversários.
Poucos dias depois da chegada de Diego López a Madrid, realizava-se a primeira mão das meias-finais da Taça do Rei. O adversário era o Barcelona e era um jogo de alto risco pois a equipa de Mourinho precisava de um suplemento psicológico para a segunda parte da época. Chegar à final da Taça à custa do Barcelona seria importantíssimo. E Mourinho resolveu apostar em Diego López, em detrimento de Adán que, semanas antes, estava em melhor forma que um dos melhores guarda-redes do mundo.
Ora, Diego López fez uma exibição seguríssima, com defesas importantes. Ganhou, aí, a confiança de todos e passou a ser o titular. Adán continuaria na sombra do titular da baliza do Real Madrid, algo que o agora titular conhece como poucos. Mas Diego López, personagem secundária nesta história toda, quer mesmo ser personagem principal. E depois de estar excelente na primeira mão dos oitavos da Champions, em casa contra o Manchester United, resolveu ir a Old Trafford fazer uma enorme exibição, como comprova este vídeo. Para provocar, Alex Ferguson veio dizer que Casillas não teria feito aquelas defesas. Nunca se saberá.
O protagonista desta história está ainda a recuperar de lesão. Mas, quando voltar, assumirá que papel? O de titular, relegando Diego López novamente para suplente? Ou voltará a ser suplente, como nos tempos de Del Bosque que deu em muitos jogos a titularidade a César?
E na selecção espanhola será que o mesmo Del Bosque, num jogo crucial contra a França, dará a titularidade a Victor Valdes - que está a cumprir um castigo de quatro jogos na Liga - ou dará a baliza a Diego López?
E Adán, continuará na sombra ou sairá de Madrid no final da época?
Os próximo capítulos desta história prometem. Os que já tivemos são dignos de um belo thriller psicológico.


17:35
Pedro Fragoso




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