domingo, 24 de março de 2013

Born in the USA



É um cliché gigantesco dizer que o futebol nos Estados Unidos mudou radicalmente depois da organização do Mundial em 1994 e da criação da Major League Soccer dois anos depois. Mesmo assim, não deixa de ser verdadeiro. 

Os EUA qualificaram-se para o seu primeiro mundial em 40 anos em 1990. E aí começou a nascer uma geração de guarda-redes talentosos. Tony Meola foi o titular no Mundial italiano. Um regresso às origens, um óptimo local para uma estreia planetária. Apesar das três derrotas - Itália, Áustria e Checoslováquia - Meola começou a atrair as atenções e chegou a Inglaterra, mais concretamente ao Brighton e depois ao Watford. Mas problemas legais referentes a autorizações laborais, impediram-no de continuar em terras britânicas, regressando assim a casa. E foi aí que preparou a festa americana de 94. Aquele "monstro" americano na baliza, com aquele rídiculo ponytail, sempre me prendeu a atenção e intrigou, num Mundial onde os penteados foram estrela - Meola já tinha um penteado horroroso em 1990, diga-se de passagem. Assim à distância, poderia ter saído da série televisiva "The Sopranos", quer pelo nome, quer pelo aspecto. Meola comandava um defesa onde pontificava Lalas, esse saído de um qualquer western, numa selecção onde os equipamentos eram mesmo com stars and stripes

O sonho americano terminou numa soalheira tarde de 4 de Julho, dia da Independência, frente ao futuro campeão Brasil. Meola não foi capaz de travar o remate cruzado de Bebeto e os EUA não aproveitaram o facto de jogaram mais de metade do jogo com mais um jogador, fruto da ridícula expulsão de Leonardo, que agrediu violentamente um adversário.

Meola foi, assim, o percursor e modelo das balizas americanas. Os EUA não falham um campeonato do mundo desde 1990 e Meola, que foi titular nos dois primeiros, conseguiu voltar à selecção em 2002, como terceiro guarda-redes, atrás dos seus sucessores Brad Friedel e Kasey Keller. O seu regresso prendeu-se com boas exibições no renovado campeonato de americano, mas nunca mais recuperou o estatuto de titular. Por uma razão simples: Keller e Friedel eram inegavelmente melhores.



Estes dois guarda-redes lutaram arduamente pela baliza norte-americana. Se Keller, também ele dono de um corte de cabelo peculiar no início da carreira, foi o titular em França 98, Friedel foi determinante na campanha americana em 2002 até aos quartos de final. E em 2006, Keller voltou a ser titular no Mundial alemão - ele que estava de passagem pela Bundesliga no Borussia de Monchengladbach - mas, por coincidência, só voltou a realizar três jogos, ficando os EUA pela fase de grupos.

Friedel e Keller cedo se mudaram para a Europa e, em Inglaterra, foram titulares em vários clubes. O primeiro chegou a jogar na Dinamarca e na Turquia, enquanto o segundo experimentou o campeonato espanhol e o alemão. Estas experiências foram decisivas para que o guarda-redes titular da selecção americana apresentasse outras qualidades que Meola nunca foi capaz de evidenciar, sendo um guarda-redes muito rudimentar no que a recursos técnicos diz respeito. Não quero, contudo, dizer que Keller ou Friedel sejam brilhantes. Contudo, Friedel continua a jogar ao mais alto nível, pelo Tottenham. E, apesar da idade - quase 42 anos -, vai mostrando ser um dos melhores da sua geração.



Depois veio Tim Howard, de todos os guardiões americanos é aquele que chegou mais longe a nível de currículo ao ser titular do Manchester United. Mais uma vez Inglaterra no destino dos americanos. Howard, depois de não ter sido muito feliz em Manchester, mudou-se para Everton onde é titular há sete épocas. Suplente de Keller em 2006, foi o titular no último Mundial 2010 e, se as lesões o permitirem, também o será em 2014.

Vale a pena, por esta altura, recuperar dois nomes de outros guarda-redes americanos contemporâneos aos já mencionados. Marcus Hahnemann, de origem alemã, teve maior sucesso no Reading e baseou grande parte da sua carreira   em Inglaterra. Foi convocado para o Alemanha 2006 e África do Sul 2010. Já Jurgen Sommer também baseou a sua carreira nos escalões secundários ingleses e foi convocado para o mundial caseiro de 1994 e para o França 98. 

E o futuro? Para já, Howard parece ser o senhor da baliza americana. Mas há gente com talento preparada para o substituir. Jurgen Klinsmann, o seleccionador, tem em Brad Guzan a melhor alternativa. Também titular num clube inglês, o Aston Villa, aos 28 anos parece estar na melhor fase da carreira depois de ter sido eterno suplente do clube de Birmingham. Se acontecer algo a Howard, Guzan estará decerto preparado para continuar a elevar o bom nome dos guarda-redes americanos contemporâneos.

Com a melhoria da Major League Soccer, os guarda-redes americanos já não têm que viajar até à Europa para se notabilizarem e chegaram às convocatórias da selecção. Nomes como Sean Johnson, Nick Rimando, Bill Hamid ou Troy Perkins são nomes seguros - apenas isso - das balizas americanas.  

Por fim, uma pequena nota para o futebol feminino. A guarda-redes mais mediática da actualidade é a americana Hope Solo que, com o seu talento debaixo dos postes a converteu numa estrela mundial, algo raro no futebol para um guarda-redes, ainda mais no feminino. Em 2015, no Canadá, Hope Solo quer guiar a sua equipa ao título, depois da agoniante final em 2011 frente ao Japão. Os EUA não conquistam o título desde 1999, no mundial caseiro.

ps: uma pequena nota para um guardião americano que passou quase despercebido por Portugal mas que os mais atentos se lembram: Zach Thorton chegou a ser o terceiro (quarto? quinto?) guarda-redes do Benfica em 2003/2004.


0 comentários:

Enviar um comentário

 
Desenhado por Pedro Barbosa | Gerido por Pedro Fragoso - Heróis e Galináceos