sábado, 30 de março de 2013

O Barcelona pós-Valdés



Victor Valdés anunciou recentemente que não iria renovar com o Barcelona. O seu contrato acaba daqui a um ano e pôs muita tinta a correr sobre quando sairia e, também, sobre quem o Barcelona iria encontrar para o substituir.

Valdés é um símbolo do actual Barcelona. É o guarda-redes que até aos 18 anos, sempre na formação do Barcelona, não queria ser guarda-redes, que viveu em constante sofrimento defendo as redes dos escalões inferiores do clube blaugrana. É o guarda-redes que, durante toda a sua formação, viveu longe da família e que conhece por dentro e como poucos La Masía, o centro de formação do clube catalão. Valdés é o guarda-redes que precisou de aconselhamento psicológico perto dos 18 anos para seguir a sua carreira, quando havia o risco eminente de abandonar o futebol. É o guarda-redes que chegou a titular do Barcelona num dos períodos mais difíceis para ser dono das redes daquele clube. 

Foram muitos os que passaram pela baliza do Barcelona no pós-Zubizarreta. Busquets, Baía, Ruud Hesp, Arnau, Reina, Dutruel, Bonano, Robert Enke ou Rustu foram sempre vistos como sucessores do guardião basco mas nenhum destes teve um sucesso prolongado. Apenas os primeiros três foram titulares indiscutíveis numa ou outra época mas sem grande brilhantismo. As contratações para a baliza sucediam-se a um ritmo vertiginoso - à semelhança do resto da equipa, diga-setambém - mas nenhum conseguia agarrar o lugar.

Até que Van Gaal apostou em Victor Valdés logo no início da temporada 2002/2003. Fez vários jogos a titular entre a Liga Espanhola e a Champions mas, num célebre jogo em Valladolid, cometeu dois pénaltis de forma idêntica e perdeu o lugar. Os meses que se seguiram foram os mais complicados que viveu como portero do Barcelona: faltou a treinos num acto de rebeldia e, como com Van Gaal não se brinca, foi relegado para a equipa B e teve que fazer uma conferência de imprensa para pedir desculpa pelos seus actos. Durante essa época fez uma longa travessia no deserto até final de Abril. O treinador já era Radomir Antic que apostou em Valdés como titular nos últimos oito jogos do campeonato. A partir daí, foi sempre titular indiscutível do Barcelona.

Rijkaard e Guardiola nunca duvidaram de Valdés, apesar algumas críticas da imprensa. De facto, não se poderia dizer que Valdés era um dos melhores do mundo. Era bom, estava a crescer mas havia melhores. E o facto do Barcelona não apostar numa contratação surpreendia muita gente já que nos outros sectores da equipa sempre foram tendo dos melhores jogadores do planeta. Mas depois de tantos anos à procura de uma solução para a baliza, os responsáveis foram dando confiança a Valdés, que se tornou num dos melhores do mundo por estes dias.

É mais do que evidente que é com Guardiola ao comando que Valdés consegue mostrar uma qualidade superior. Mas isso, a meu ver, tem também um outro factor: durante algumas épocas, Valdés foi titular tendo como suplente Jorquera, outro talento da formação catalã; mas é com a chegada de Pinto - um guarda-redes experiente, sem ser brilhante, mas com muitos anos de balizas na Liga Espanhola -  que Valdés consegue ganhar uma outra confiança debaixo dos postes, não cometendo tantos erros como era habitual. 

Os que não gostam de Valdés argumentam que ele tem pouco trabalho enquanto guarda-redes do Barcelona. Pode ser que sim, mas isso é mais difícil de gerir porque implica mais concentração. Valdés não é um guarda-redes vistoso entre os postes, é apenas eficaz. Mas onde mais eu gosto dele é nas saídas aos adversários e no bom jogo de pés - apesar de um ou outro erro.

O Barcelona, noticia a imprensa, está a tentar demover o seu guarda-redes da decisão que tomou. Mas, mais tarde ou mais cedo, Valdés terá que sair da titularidade e o Barcelona irá ter que procurar um substituto. E não se perspectiva ser uma tarefa fácil. Já se noticiou o interesse em Rui Patrício mas a fragilidade no jogo de pés do guarda-redes do Sporting não encaixa no perfil pretendido.

E qual é o perfil? Na minha opinião, e tendo em conta a pressão que implicará ser o substituto de Valdés, o Barcelona tem que contratar um guarda redes já feito, que já tenha vivido a pressão de ser guarda-redes de um clube grande. Hipóteses não há muitas: De Gea ou Courtouis ainda são muito jovens mas já têm alguma rodagem interessante; Neuer deverá ser a aposta de Guardiola no seu Bayern; Buffon já não quererá viver esta aventura; Diego Lopéz está no Real Madrid.

Sobram, assim em termos de nomes evidentes, Stekelenburg, Lloris ou Joe Hart. Veremos se os dirigentes do Barcelona apostam num destes nomes ou então descobrem em La Masía um novo talento ou mesmo se apostam num jovem guarda-redes de outra nacionalidade.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Vintage #1: Frederico Barrigana



Frederico Barrigana tinha que ser a primeira opção desta secção porque, enquanto vibrava com as defesas de Vítor Baía, lia e ouvia as histórias do mítico Barrigana.

Antes de tudo, não era um nome normal. Barrigana soa a homem gordo para um miúdo de cinco anos, não? Mas esqueço logo isso quando descubro o apelido: mãos de ferro. Para um guarda-redes há poucos cognomes mais fortes do que este. Segundo me contaram pessoas que o viram jogar, Barrigana era felino na arte de defender, exuberante, um monstro das balizas.

Foi titular do Futebol Clube do Porto desde muito cedo e durante mais de uma década, apesar de não ser formado lá - chegou a jogar no Sporting, sem sucesso, no início da carreira. Mesmo assim, não conseguiu nenhum campeonato, ficando ligando ao segundo maior jejum de títulos nacionais dos portistas, mais concretamente dezasseis anos. E para piorar ainda a história, na temporada seguinte à saída de Barrigana para o Salgueiros - na II Divisão - o FCPorto quebrou o jejum e foi campeão nacional e com a melhor defesa do campeonato. A sua saída foi imposta pelo carismático Yustrich, o técnico brasileiro que quebrou o jejum mas que fica ligado a muitas histórias surreais para um treinador. 

Barrigana é um dos símbolos do FCPorto mas também das balizas nacionais, seguramente no top 10 português de todos os rankings.  

domingo, 24 de março de 2013

Born in the USA



É um cliché gigantesco dizer que o futebol nos Estados Unidos mudou radicalmente depois da organização do Mundial em 1994 e da criação da Major League Soccer dois anos depois. Mesmo assim, não deixa de ser verdadeiro. 

Os EUA qualificaram-se para o seu primeiro mundial em 40 anos em 1990. E aí começou a nascer uma geração de guarda-redes talentosos. Tony Meola foi o titular no Mundial italiano. Um regresso às origens, um óptimo local para uma estreia planetária. Apesar das três derrotas - Itália, Áustria e Checoslováquia - Meola começou a atrair as atenções e chegou a Inglaterra, mais concretamente ao Brighton e depois ao Watford. Mas problemas legais referentes a autorizações laborais, impediram-no de continuar em terras britânicas, regressando assim a casa. E foi aí que preparou a festa americana de 94. Aquele "monstro" americano na baliza, com aquele rídiculo ponytail, sempre me prendeu a atenção e intrigou, num Mundial onde os penteados foram estrela - Meola já tinha um penteado horroroso em 1990, diga-se de passagem. Assim à distância, poderia ter saído da série televisiva "The Sopranos", quer pelo nome, quer pelo aspecto. Meola comandava um defesa onde pontificava Lalas, esse saído de um qualquer western, numa selecção onde os equipamentos eram mesmo com stars and stripes

O sonho americano terminou numa soalheira tarde de 4 de Julho, dia da Independência, frente ao futuro campeão Brasil. Meola não foi capaz de travar o remate cruzado de Bebeto e os EUA não aproveitaram o facto de jogaram mais de metade do jogo com mais um jogador, fruto da ridícula expulsão de Leonardo, que agrediu violentamente um adversário.

Meola foi, assim, o percursor e modelo das balizas americanas. Os EUA não falham um campeonato do mundo desde 1990 e Meola, que foi titular nos dois primeiros, conseguiu voltar à selecção em 2002, como terceiro guarda-redes, atrás dos seus sucessores Brad Friedel e Kasey Keller. O seu regresso prendeu-se com boas exibições no renovado campeonato de americano, mas nunca mais recuperou o estatuto de titular. Por uma razão simples: Keller e Friedel eram inegavelmente melhores.



Estes dois guarda-redes lutaram arduamente pela baliza norte-americana. Se Keller, também ele dono de um corte de cabelo peculiar no início da carreira, foi o titular em França 98, Friedel foi determinante na campanha americana em 2002 até aos quartos de final. E em 2006, Keller voltou a ser titular no Mundial alemão - ele que estava de passagem pela Bundesliga no Borussia de Monchengladbach - mas, por coincidência, só voltou a realizar três jogos, ficando os EUA pela fase de grupos.

Friedel e Keller cedo se mudaram para a Europa e, em Inglaterra, foram titulares em vários clubes. O primeiro chegou a jogar na Dinamarca e na Turquia, enquanto o segundo experimentou o campeonato espanhol e o alemão. Estas experiências foram decisivas para que o guarda-redes titular da selecção americana apresentasse outras qualidades que Meola nunca foi capaz de evidenciar, sendo um guarda-redes muito rudimentar no que a recursos técnicos diz respeito. Não quero, contudo, dizer que Keller ou Friedel sejam brilhantes. Contudo, Friedel continua a jogar ao mais alto nível, pelo Tottenham. E, apesar da idade - quase 42 anos -, vai mostrando ser um dos melhores da sua geração.



Depois veio Tim Howard, de todos os guardiões americanos é aquele que chegou mais longe a nível de currículo ao ser titular do Manchester United. Mais uma vez Inglaterra no destino dos americanos. Howard, depois de não ter sido muito feliz em Manchester, mudou-se para Everton onde é titular há sete épocas. Suplente de Keller em 2006, foi o titular no último Mundial 2010 e, se as lesões o permitirem, também o será em 2014.

Vale a pena, por esta altura, recuperar dois nomes de outros guarda-redes americanos contemporâneos aos já mencionados. Marcus Hahnemann, de origem alemã, teve maior sucesso no Reading e baseou grande parte da sua carreira   em Inglaterra. Foi convocado para o Alemanha 2006 e África do Sul 2010. Já Jurgen Sommer também baseou a sua carreira nos escalões secundários ingleses e foi convocado para o mundial caseiro de 1994 e para o França 98. 

E o futuro? Para já, Howard parece ser o senhor da baliza americana. Mas há gente com talento preparada para o substituir. Jurgen Klinsmann, o seleccionador, tem em Brad Guzan a melhor alternativa. Também titular num clube inglês, o Aston Villa, aos 28 anos parece estar na melhor fase da carreira depois de ter sido eterno suplente do clube de Birmingham. Se acontecer algo a Howard, Guzan estará decerto preparado para continuar a elevar o bom nome dos guarda-redes americanos contemporâneos.

Com a melhoria da Major League Soccer, os guarda-redes americanos já não têm que viajar até à Europa para se notabilizarem e chegaram às convocatórias da selecção. Nomes como Sean Johnson, Nick Rimando, Bill Hamid ou Troy Perkins são nomes seguros - apenas isso - das balizas americanas.  

Por fim, uma pequena nota para o futebol feminino. A guarda-redes mais mediática da actualidade é a americana Hope Solo que, com o seu talento debaixo dos postes a converteu numa estrela mundial, algo raro no futebol para um guarda-redes, ainda mais no feminino. Em 2015, no Canadá, Hope Solo quer guiar a sua equipa ao título, depois da agoniante final em 2011 frente ao Japão. Os EUA não conquistam o título desde 1999, no mundial caseiro.

ps: uma pequena nota para um guardião americano que passou quase despercebido por Portugal mas que os mais atentos se lembram: Zach Thorton chegou a ser o terceiro (quarto? quinto?) guarda-redes do Benfica em 2003/2004.


domingo, 17 de março de 2013

A sucessão de Peter Schmeichel



Substituir um grande jogador não é fácil. Se se trata de um goleador, cobra-se ao novo avançado que marque golos. A um novo 10, que finte e faça passes mágicos. A um extremo, que vá à linha e faça cruzamentos certeiros. A um central, que imponha respeito aos adversários e que evite as suas movimentações. E a um novo guarda-redes, para além de não dar frangos, que faça defesas que garantam vitórias. 

Não sei qual delas é a posição mais ingrata mas centremo-nos no caso de Peter Schmeichel. Oito épocas como titular do Manchester United, contribuiu com grandes defesas e exibições para a década dourada do clube: 5 campeonatos, três taças e uma Champions. Para além de talentoso, era carismático. E reforçou a sua posição no clube com o titulo europeu de selecções em 1992. Mas, com a vitória na Champions de 98/99, considerou que tinha chegado ao fim a sua aventura na equipa de Ferguson e partiu, deixando um enorme vazio na baliza do United - os adeptos do Sporting agradecem ainda hoje essa decisão já que o dinamarquês foi essencial para quebrar o jejum dos 18 anos sem o título nacional.

Ferguson teve vários problemas em encontrar um bom substituto para Schmeichel. Só em 2005/2006 encontrou no já veterano Van der Sar a estabilidade necessária. Ou seja, seis épocas até o clube ter um titular indiscutível na baliza. Curiosamente, o mesmo número de temporadas que o holandês foi titular indiscutível, com algumas falhas mas, principalmente, com exibições estrondosas. Tal como Schmeichel, também ganhou uma Champions - embora tenha perdido outra - e foi quatro vezes campeão. 

Mas se olharmos para os títulos, não foi por faltar um guarda-redes que o United deixou de vencer. Nos seis anos sem um titular absoluto e incontestável, o clube foi campeão três vezes, fruto, é certo, de uma equipa cheia de grandes jogadores e de rotinas enraizadas. 

Para o fim, deixo aqui os nomes dos guarda-redes que passaram pela baliza do Manchester United no pós-Schmeichel e no pré-Van der Sar. Uns com mais sucesso que outros mas sem nunca deixar boa impressão junto dos adeptos.


Van der Gouw - era o suplente de Schemeichel, nunca conseguiu ser titular. Na Supertaça Europeia de 1999, foi titular e o único golo da partida, de Marcelo Salas, avançado chileno da Lázio, foi um erro do guarda-redes holandês. Mesmo assim, era um guardião elástico para a altura que tinha.



Mark Bosnich - já tinha jogado duas épocas em Old Trafford antes da chegada de Schmeichel, esteve seis épocas a titular do Aston Villa e regressou ao clube de Manchester para lutar pela titularidade com Van der Gouw. Na primeira época dividiu a baliza com o holandês, na segunda quase nunca foi titular. Foi, depois, aquecer o banco do Chelsea antes de voltar à Austrália, terra natal, para se reformar.


Massimo Taibi - chegou com Bosnich mas raramente jogou. Porquê? Acho que este momento, na nona jornada contra o Southampton, explica quase tudo. Nem uma época durou.




Fabien Barthez - quem melhor que o campeão do mundo de clubes para fazer esquecer Schmeichel? Barthez foi um guarda-redes de alto nível e, em Manchester, teve momentos muito bons, ajudando à conquista de dois campeonatos em três temporadas. Podia estar à procura de grandes defesas mas prefiro recordar dois belos momentos negativos que marcam a sua passagem pelo United. O primeiro, contra o West Ham, num momento inexplicável. O segundo, num jogo da Champions em casa contra o Deportivo, derrota por 2-3. Ver neste vídeo os minutos 1:20 e 5:50. Para mim, a carreira de Barthez no United resume-se a isto. 

Ricardo Lopez - Este espanhol que pouco jogou no clube de Manchester foi contratado ao Valladolid e poucos entendem a sua contratação. 

Roy Carrol - Este norte-irlandês, nas quatro épocas que jogou no clube, foi sempre uma opção válida para Ferguson. Sem ser brilhante, foi muitas vezes eficaz mas nunca foi um guarda-redes de topo. Um bom suplente que impediu o golo mais bonito da carreira de Pedro Mendes. Pois, estou a ser irónico, foi um belo galináceo. 

Tim Howard - vindo directamente dos Estados Unidos, teve duas épocas para provar que seria um grande guarda-redes. Talentoso, algumas quebras de concentração nunca fizeram dele o guarda-redes incontestável. Nos anos seguintes, conseguiu impôr-se no Everton onde é titular e, amadurecido, tem demonstrado ser um guarda-redes completo, sem ser especialmente brilhante.





sábado, 16 de março de 2013

Fetiche #1: Mickaël Landreau




Aviso prévio: fetiches não se explicam racionalmente. Os guarda-redes que passarem por esta secção serão apenas fruto das minhas opções emocionais desde os tempos de miúdo em que assistia a jogos de futebol de forma totalmente irracional.

Landreau. Porquê este francês? E não Barthez? Sinceramente não sei explicar mas sei que sempre olhei para Landreau sentia alguma coisa. Será do estilo? Não creio, já que nem era extravagante nem tinha nada que o diferenciasse dos outros companheiros de profissão. Apesar de não estarmos a falar de um qualquer banal guarda-redes, Landreau nunca fez nada de extraordinário que o distinguisse dos outros. Mas eu insistia: "quem é o teu guarda-redes favorito?", perguntavam-se. A resposta saía pronta: Landreau.

Seria por pertencer ao Nantes do final dos anos 90, aquela bela equipa de amarelo e verde, de Mário Silva, Savinaud, Pujol, Moldovan ou Ahamada? É uma hipótese. Será por ter defendido o famoso penalti de Ronaldinho, então jogador do PSG? Não é possível pois nessa altura já eu era um defensor acérrimo de Landreau. Sinceramente, não consigo explicar. Eu nem via muitos jogos do homem, ele não era (nem foi) titular da selecção francesa e os jogos da Liga Francesa, no final dos anos 90, só passavam em Portugal, creio, no programa Eurogoals da Eurosport. 

Landreau tem actualmente 33 anos e joga no Bastia. Foi campeão muito jovem no Nantes, transferiu-se para o PSG mas não foi feliz, passando depois para o Lille. Quando se pensava que esta mudança implicava uma despromoção na carreira, ajudou o clube do norte de França a ser campeão quase 60 anos depois. Na selecção francesa esteve sempre tapado por Barthez e, em 2008, quando se poderia pensar que seria o titular no Euro da Suíça e Áustria, Domenech nem o convocou. Nessa edição a França não conseguiu uma única vitória na fase de grupos. 

Quanto ao estilo, sempre foi temido pelos jogadores que marcavam penaltis. É, de facto, um especialista. Teve sempre problemas com as saídas por alto e não é conhecido por ser um guarda-redes super concentrado, é por isso que o relacionamos com alguns galináceos estrondosos.

Até hoje me pergunto por que é que sempre fui um admirador desta guarda-redes. Mas sempre que alguém que me pergunta por referências menciono o tal francês, eterno suplente da selecção, com cara de miúdo e cabelo à TinTin - será isso?

quinta-feira, 14 de março de 2013

O thriller da baliza do Santiago Bernabéu



Na história que se segue existem quatro personagens, dois principais, outros dois com papel secundário. O cenário é a baliza do Santiago Bernabéu que, nos últimos anos, só tem conhecido um dono: Iker Casillas, ídolo de quase todos os adeptos do Real Madrid, o herói da "Novena" em Glasgow, onde entrou na segunda parte para fazer três defesas impossíveis, contribuindo para que o Bayer Leverkusen continuasse a ser chamado muito justamente do clube do quase.

Um protagonista já temos: Casillas, para muitos o melhor guarda-redes do mundo, campeão europeu e mundial de selecções, capitão da selecção espanhol, um símbolo do futebol espanhol. Quanto a exibições, no Real Madrid raramente comprometeu. E o outro protagonista? José Mourinho, que desde que chegou a Madrid sempre quis que Casillas tivesse um concorrente à altura.

A imprensa e os adeptos nunca gostaram muito desta cruzada do técnico português mas, aqui para nós, é algo que fazia sentido. Dudek, na primeira época, ainda era uma sombra mas com a saída do polaco só ficou Adán, da cantera, como alterantiva. Casillas, na época passada em que o Real Madrid foi campeão, não deu hipóteses a Adán e fez exibições espectaculares. Esta época, face ao insucesso na Liga Espanhola e na primeira parte da temporada, Mourinho resolveu fazer de Casillas o bode expiatório: sentou-o no banco, disse que Adán estava, naquele momento melhor que Casillas e abriu uma guerra.



Porém, num dos momentos mais espectaculares desta temporada, acontece isto. Mourinho tem que voltar a confiar no capitão Casillas que demonstra estar em grande forma e volta a ganhar o lugar a Adán. Só que Casillas sofre um lesão poucos jogos depois que o impossibilita de jogar por dois meses. Tempo para Adán voltar a ser dono da baliza? Nem por isso.

Por capricho do destino, a lesão do guarda-redes acontece ainda no período de transferências, logo Mourinho tem oportunidade para ir buscar o tão ansiado terceiro guarda-redes. O escolhido é o quarto actor desta história, Diego López, também da cantera do Real Madrid, ex-suplente de Casillas por quatro épocas, da mesma idade de Casillas mas que se fartou de esperar por uma oportunidade no clube blanco. Teve espaço no Villareal onde participou na caminhada até às meias finais da Champions, da Liga Europa e no segundo lugar do clube dos arredores de Valencia na Liga Espanhola.



Diego López, catorze centímetros mais alto que Casillas e mais seis que Adán, voltou ao clube de formação com uma grande reputação, conseguida fruto de muito boas épocas anteriores onde revelou ser um guarda redes completo, sem ser vistoso, mas muito eficaz e seguro. O que eu gosto mais nele são os reflexos debaixo dos postes e a saída aos pés dos adversários. 

Poucos dias depois da chegada de Diego López a Madrid, realizava-se a primeira mão das meias-finais da Taça do Rei. O adversário era o Barcelona e era um jogo de alto risco pois a equipa de Mourinho precisava de um suplemento psicológico para a segunda parte da época. Chegar à final da Taça à custa do Barcelona seria importantíssimo. E Mourinho resolveu apostar em Diego López, em detrimento de Adán que, semanas antes, estava em melhor forma que um dos melhores guarda-redes do mundo. 

Ora, Diego López fez uma exibição seguríssima, com defesas importantes. Ganhou, aí, a confiança de todos e passou a ser o titular. Adán continuaria na sombra do titular da baliza do Real Madrid, algo que o agora titular conhece como poucos. Mas Diego López, personagem secundária nesta história toda, quer mesmo ser personagem principal. E depois de estar excelente na primeira mão dos oitavos da Champions, em casa contra o Manchester United, resolveu ir a Old Trafford fazer uma enorme exibição, como comprova este vídeo. Para provocar, Alex Ferguson veio dizer que Casillas não teria feito aquelas defesas. Nunca se saberá.

O protagonista desta história está ainda a recuperar de lesão. Mas, quando voltar, assumirá que papel? O de titular, relegando Diego López novamente para suplente? Ou voltará a ser suplente, como nos tempos de Del Bosque que deu em muitos jogos a titularidade a César?

E na selecção espanhola será que o mesmo Del Bosque, num jogo crucial contra a França, dará a titularidade a Victor Valdes - que está a cumprir um castigo de quatro jogos na Liga - ou dará a baliza a Diego López?

E Adán, continuará na sombra ou sairá de Madrid no final da época?

Os próximo capítulos desta história prometem. Os que já tivemos são dignos de um belo thriller psicológico.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Mano a Mano #1: Artur Moraes vs Hélton



A luta pelo título no campeonato português está excitante. Benfica e Porto têm comprovado que são as melhores equipas da actualidade e fazem marcação cerrada na luta pelo primeiro lugar. Não é uma novidade mas a distância que os separa da concorrência já não era tão expectável. 

As grandes figuras destas duas equipas têm sido os goleadores, Jackson Martinez no Porto e Lima e Cardozo pelo Benfica. James também fez um bom início de época, Moutinho é a máquina do costume e no Benfica jogadores como Sálvio, Gaitan, Ola John e até Matic têm tido algum destaque. Mas, e os guarda-redes? É verdade que a maioria dos adversários de Benfica e Porto se encolhem demasiado, não chegando com muita facilidade à área contrária. Mas nas competições europeias os dois principais guardiões têm tido muito mais trabalho e é aí que, em jogos de maior dificuldade, têm que fazer valer o seu talento.

Artur Moraes e Hélton têm alguns pontos em comum. A nacionalidade, o facto de terem passado por um clube português antes de chegarem a um grande, a idade, já que são trintões - 32 para Artur, quase 35 para Hélton. Mas nas qualidades técnicas diferem bastante. Vamos a uma análise mais detalhada.

Primeiro Artur Moraes. Saiu do Brasil para Itália à procura do sucesso europeu e as boas exibições na bela cidade de Siena garantiram-lhe passagem para a capital, vestindo de giallorosso. Porém, na AS Roma não foi feliz, nunca conseguindo impôr-se como titular face a Doni e a Júlio Sérgio, dois compatriotas. O empréstimo ao Braga veio na altura certa mas só passados seis meses é que se começou a notar isso. Contratado para lutar com Quim pela baliza do Braga, uma lesão do português obrigou o Braga a procurar alternativas e foi encontrar a solução em Felipe, outro brasileiro - um guardião mais jovem, mais elástico e com grande reputação fruto das boas épocas no Corinthians. Para o bem de Artur, a passagem de Felipe por Braga não foi feliz e Domingos deu, perto do meio da época, a titularidade a Artur, tendo sido decisivo na campanha do Braga até Dublin, palco da final da Liga Europa. Esses seis meses foram fundamentais para que Jorge Jesus visse nele o homem ideal para a baliza do Benfica.

Chega ao estádio da Luz no melhor momento para um guarda-redes. No ano anterior, os adeptos do Benfica tiveram que levar com Roberto, mais a sua veia galinácea. Qualquer um que viesse dificilmente faria pior que Roberto e Jorge Jesus acreditou que o sereno Artur Moraes fosse a solução. E pegou de estaca, mesmo com a chegada poucas semanas depois do titular da selecção portuguesa Eduardo. 

Na primeira época, apesar de não ter valido títulos - não jogou na Taça da Liga, único troféu conquistado pelos encarnados - Artur deu mais tranquilidade a uma defesa que no ano anterior tremia por todos os lados. Nos primeiros jogos foi fazendo boas exibições e ganhando auto-confiança e impondo respeito aos adversários. Artur é antítese de Roberto. O espanhol, com um físico impressionante, gostava de ser vistoso e exuberante. Artur Moraes é tranquilo, pouco espectacular mas eficaz. Debaixo dos postes é fortíssimo. Nas saídas aos pés dos jogadores consegue comprometer as aspirações dos avançados. Peca, é verdade, nas saídas com as mãos por alto e não é brilhante no jogo com os pés. Esta época já fez muitas defesas de qualidade. Uma delas, com o Rio Ave, salvou o Benfica mesmo no final da partida. A mais bonita, para mim, foi contra o Bayer Leverkusen, num voo para a esquerda, em sentido contrário à sua passada.

Passando para o guarda-redes portista, Hélton é dono da baliza azul e branca há mais de seis anos. Fez esquecer Baía, não deu hipóteses a Ventura, Nuno, Beto ou Bracalli e continua com altos níveis de qualidade apresentados debaixo dos postes. Mesmo assim, está numa fase descendente da carreira, na minha opinião. No ano em que ganhou tudo com o Porto de Villas-Boas, Hélton teve a melhor época da sua carreira. E isto num ano em que o Porto dominava os jogos. Mas a alta taxa de sucesso e de vitórias da equipa deve-se, em muito, às extraordinárias defesas que o guarda-redes brasileiro fez. Não deu nenhum frango nessa época, ele que é especialista em brindar os adeptos com um grande galináceo por ano. Chelsea, Dínamo Kiev, Atlético de Madrid, PSG...tudo bons exemplos. 

O ano passado fez uma época muita mais fraca, falhando muitas bolas aéreas e lances de óbvia descoordenação da defesa, ele que é um líder do sector mais recuado da equipa. O facto de ter perdido a braçadeira de capitão - episódio por explicar, ainda - foi mais um factor que desestabilizou a época do guardião. Este ano já teve boas exibições mas nota-se que já não vai buscar as mesmas bolas que antigamente e, sinal dos tempos, abusa do jogo com os pés, algo em que é exímio mas também altamente perigoso para os corações dos adeptos portistas.

Quanto a outras qualidades de Hélton, partilha com Artur Moraes a grande capacidade de concentração durante os 90 minutos, é mais vistoso que o guarda-redes do Benfica, joga muito melhor com os pés e também é melhor, sem ser brilhante, no jogo aéreo. Porém, Artur fica a ganhar nas saídas aos pés dos avançados e, na minha opinião, o guarda-redes benfiquista é mais eficaz debaixo dos postes. 




Hélton está a atingir o limite de idade para ser dono de uma baliza de um clube de topo. Artur está na idade certa para vingar como guarda-redes de um clube de topo. Hélton já esteve na selecção brasileira e ganhou uma Copa América. Mas nem chegou a jogar. Dunga, o seleccionador, apesar de apostado nele durante toda a preparação para o torneio, no último minuto, contra todas as apostas e para surpresa de todos, apostou no já referido Doni que nunca tinha jogado um minuto pela selecção brasileira antes do primeiro jogo oficial dessa Copa América de 2007. O Brasil venceu, Hélton esteve sempre alegre no banco e na comitiva brasileira mas demorou duas épocas a recuperar psicologicamente desse revés na selecção. Nunca mais foi chamado apesar de em 2010, no Mundial, Parreira ter convocado Gomes e Doni, e de em 2011 Mano Menezes ter levado à Copa América 2011 Victor e Jefferson. Os quatro são todos de qualidade inferior ao guarda-redes portista, que poderia ter sido a principal alternativa a Júlio César nas duas competições.

Quanto a Artur Moraes, na minha opinião também poderá reivindicar um lugar na canarinha no próximo Mundial. Scolari convocou, para o seu primeiro jogo, Júlio César e Diego Alves, guarda-redes que, se tudo correr bem, farão parte dos 23. Sobra um e acho que Artur Moraes, se se mostrar a um nível competitivo muito alto, tem fortes hipóteses de entrar na lista final.

Se tivesse que dar uma pontuação, de 0 a 10, a cada um dos dois guarda-redes analisados, seria da seguinte forma:

Pela carreira, Hélton merece um 8,5 e Artur um 7. Pela condição actual, terei que inverter os números: Artur com 8,5 e Hélton com apenas sete pontos.

terça-feira, 12 de março de 2013

Grandes momentos #1 - a defesa que valeu o prémio






A primeira viagem no tempo decorre até 1994, na cidade de Orlando, nos Estados Unidos. Bem sei que é uma cidade pouco dada a futebol mas todos rapidamente associam aquele país e a data de 1994 ao Mundial realizado pela primeira vez em terras do Tio Sam. Jogava-se a segunda jornada da fase de grupos no Citrus Bowl, nome adequado para receber a laranja mecânica, já bem distante do fulgor de 1988. O adversário foi a vizinha Bélgica, que em 1986 ficou em quarto lugar e em 1990 foi eliminada pela Inglaterra. Neste jogo, a Bélgica, quando ainda equipava de vermelho, revelou-se uma toranja amarga para a Holanda.

Apesar do 1-0 final favorável aos belgas - golo de Albert aos 65 minutos - o jogo foi equilibrado, com muitas oportunidades para ambos os lados permitindo aos guarda-redes brilharem. De um lado, o holandês De Goey; do outro, Michel Preud'Homme, que poucas semanas depois passaria a vestir a camisola do Benfica. Bélgica e Holanda tinham ganho os jogos de estreia, também pela diferença mínima, e uma vitória praticamente assegurava a passagem aos oitavos. Foi, por isso, um jogo descomprometido, sempre em busca do golo.

Vamos ao grande momento: depois do 1-0, a Bélgica em contra ataque não conseguiu matar o jogo, fazendo com que a Holanda fosse pressionando cada vez mais a defesa belga à procura do empate. Aos 91 minutos, o pequeno holandês Marc Overmars, na altura com 21 anos, chuta de fora da área com o pé direito - o pior. A bola ia na direcção da baliza mas sofre um desvio num defesa belga, ganhando velocidade e altura. Só que Preud'Homme faz a defesa da tarde, com a mão esquerda, enviando a bola para a trave e evitando mesmo no final do jogo o empate, garantindo a passagem da Bélgica à segunda fase da competição, a quarta consecutiva em Mundiais.

É uma defesa do outro mundo, síntese das qualidades de Preud'Homme: elástico, eficaz e concentrado. Não sei se terá sido o momento chave quando atribuíram, pela primeira vez em Mundiais, o prémio Lev Yashin para o melhor guarda-redes da competição. Nesse ano, Ravelli podia ter sido uma escolha mais óbvia. Mas decidiram premiar Preud'Homme. E ainda bem pois, a nível de clubes, o belga tem um currículo à medida das suas qualidades. No Benfica ganhou uma Taça - e evitou humilhações - e foi campeão belga pelo Standard e pelo Mechelen, tendo ganho uma Taça das Taças ao serviço daquele último. O prémio de melhor guarda redes do Mundial 94 marcou a carreira deste guardião belga que sucedeu a Pfaf na baliza da selecção, uma herança pesada mas superada. Depois disso, poucos foram os guarda-redes belgas que se destacaram, à semelhança da sua selecção. As esperanças estão neste momento voltadas para Courtois.

A Bélgica acabaria por ser eliminada nos oitavos pela Alemanha. A dupla Voller - Klinsmann não deu hipóteses a Preud'Homme e fica também na memória o segundo golo da Alemanha, de Klinsmann: quem não se lembra do remate rasteiro cruzado do alemão, de primeira e de pé esquerdo, com o guarda-redes belga a esticar-se todo e a acompanhar no chão com o olhar a bola a entrar na baliza e mandando as garrafas de água de Preud'Homme pelo ar?

ps: Preud'Homme fica igualmente ligado a um grande momento da história dos Mundiais na edição de 1994. Se eu disser Saeed Owairan, apenas os mais fanáticos chegarão lá. Mas se eu falar no golo saudita do jogador que pegou na bola no seu meio campo e só parou no fundo da baliza de...Preud'Homme, muitos mais chegarão lá depressa. Foi na terceira jornada da fase de grupos, derrota da Bélgica por 1-0, o tal golo memorável que Preud'Homme - "ainda bem", dizem muitos - não defendeu.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Manifesto



Não há melhor apresentação para este blogue do que reproduzir o pequeno escrito de Eduardo Galeano sobre os guarda-redes no excelente livro "Futebol: sol e sombra":

"Chamam-lhe porteiro, guardião, goleiro, cérbero ou guarda-trincheiras, mas também podia ser chamado mártir, paganini, penitente ou palhaço das bofetadas. Dizem que no local onde pisa não volta a crescer a relva.

É um solitário. Está condenado a ver o jogo de longe. Sem sair da baliza, aguarda, só entre os postes, o seu fuzilamento. Antes vestia de negro, como o árbitro. Agora o árbitro já não vem disfarçado de corvo e o guarda-redes consola a solidão com fantasias coloridas.

Não marca golos. Está ali para impedir que os marquem. O golo, a festa do futebol: o goleador faz a alegria e o guarda-redes, esse desmancha-prazeres, desfá-la.

Traz nas costas o número um. O primeiro a cobrar? O primeiro a pagar. O guarda-redes tem sempre a culpa. E se não a tem, paga à mesma. Quando qualquer jogador comete um penalti, o castigado é ele: ali o deixam, abandonado face ao verdugo, na imensidão da baliza vazia. E quando a equipa tem uma tarde má, é ele quem paga a conta, sob uma chuva de remates, expiando pecados alheios.

Os outros jogadores podem cometer um ou vários erros de palmatória, mas redimem-se com uma finta espectacular, um passe magistral, um disparo certeiro: ele não. A multidão não perdoa ao guarda-redes. Saiu em falso? Escorregou de forma ridícula? Deixou ressaltar a bola? Foram de seda aqueles dedos de aço? Com apenas uma fífia, o guarda-redes arruína um jogo ou perde um campeonato, e então o público esquece subitamente todas as suas façanhas e condena-o à desgraça eterna. A maldição persegui-lo-á até ao fim dos seus dias."

 
Desenhado por Pedro Barbosa | Gerido por Pedro Fragoso - Heróis e Galináceos