Sobre a final da Champions de 2005 há muitas histórias para contar. O encontro entre AC Milan e Liverpool, dois históricos do futebol europeu, ficará para sempre gravado nos almanaques como uma das melhores finais de sempre. Da noite molhada de Istambul, fica uma primeira parte de sonho dos italianos, chegando ao intervalo a ganhar 3-0 e a dar um baile ao adversário. Mas também fica uma segunda parte maravilhosa dos homens de Liverpool, que em quinze minutos igualaram os 45 minutos milaneses. 3-3, recurso a prolongamento sem qualquer golo e grandes penalidades. Venceram os vermelhos de Liverpool porque do seu lado estava o polaco Dudek.
Dudek, ágil entre os postes, amigo dos fotógrafos mas também conhecido pelas falhas de concentração, ficará sempre imortalizado por dois momentos ocorridos naquela final de Istambul. No prolongamento, Shevchenko, um dos melhores avançados de então, rematou no mesmo segundo por duas vezes à baliza de Dudek. Este negou-lhe o golo de forma miraculosa. O segundo momento são vários: são cinco grandes penalidades cobradas por jogadores do AC Milan. Serginho, Pirlo, Tomasson, Kaká e Shevchenko foram os escolhidos de Ancelotti para ultrapassar Dudek, que tinha decidido usar uma estratégia diferente na abordagem a cada remate dos onze metros.
Não era nenhuma inovação mas raramente tínhamos visto algo assim num jogo tão importante. Antes de partirem para cada remate, os jogadores do AC Milan tinham pela frente um guarda-redes que não parava quieto, sempre agitando os braços, de um poste ao outro, na tentativa de desconcentrar o seu adversário. E teve resultados. Serginho e Pirlo (!) falharam os seus remates. A seguir, Tomasson e Kaká conseguiram perceber o esquema do polaco e não tiveram dificuldades em marcar. E como os companheiros de Dudek iam cumprindo com a sua obrigação, quando chegou à vez de Shevchenko era obrigatório que fosse golo para que os milaneses sonhassem com o troféu. Mas o ucraniano ainda devia estar a pensar como tinha falhado aquele golo no prolongamento e partiu medroso, assustado, mole para o remate. Foi frouxo e centrado, permitindo a Dudek - que mantinha o ritual dançante - a defesa e a glória.
Lembro-me de na altura ter achado aquilo uma loucura. E, durante muito tempo, em jogos de futebol com amigos, no momento de uma grande penalidade havia sempre alguém que clamava por Dudek, ora pedindo que o guarda-redes dançasse, ora era o próprio guarda-redes que tentava destabilizar o adversário à imagem do polaco.
Há umas linhas atrás disse tinha sido um momento único. Pois bem, é a altura de recordar Bruce Grobbelaar, o mítico sul-africano que defendeu a baliza do Liverpool na década de 80 e que também ganhou uma Champions nas grandes penalidades frente a uma equipa italiana. Em 1984 foi contra a Roma, em plena capital italiana. A excentricidade de Grobbelaar já era conhecida por isso não foi surpresa termos assistido às lendárias spaghetti legs antes do penúltimo penalti romano. A forma como se comportou antes dos remates decisivos tinha apenas o propósito de desconcentrar os adversários porque ele não era um especialista na defesa de remates de onze metros. Mas fez os possíveis para atrapalhar e a verdade é que em quatro remates, dois foram para fora.
Pelo contrário, Dudek era um especialista em grandes penalidades e conseguiu defender três em Istambul após a sua performance pré-remate. Se foi inspirado por Grobbelaar não sei, mas Dudek ficou imortalizado para sempre na história dos guarda-redes mundiais devido à sua prestação na final de Istambul.


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Pedro Fragoso






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